Um vídeo melhor do Rofe , para quem gosta de bichos
Ave de Arribação
Do Lat. arripare < ripa, riba v. int., fazer arribada; Náut., entrar forçadamente em porto que não era o do seu destino; guinar para sotavento; por ext. aportar; chegar; levantar arriba; s. f., acção de arribar; aves de -: as que, em determinado tempo, emigram para outras regiões.
1.5.12
19.4.12
Então até breve
Esta é uma excelente altura para uma pausa neste blog , tudo por boas razões incluindo uma boa e velha análise custo-benefício deste exercício.
É uma questão que me ocupa muito tempo , convencer-me de que o calculismo não é intrinsecamente mau . Se calhar é . Sempre que se ouve a palavra é em tom depreciativo.Pelo menos sei que os cálculos estão muitas vezes errados , os meus e os dos outros , que a vida está cheia de coisas incalculáveis e tenho uma definição larga de "interesse".
Enfim , espero lá mais para o Verão ter isto tudo mais organizado e voltar aqui aos episódios , histórias , opiniões e alguns disparates . Entretanto podem ver este vídeo do Rofe na praia a começar a nadar.
calculista
(cálculo + -ista)
(cálculo + -ista)
adj. 2 g. s. 2 g.
Que ou pessoa que tudo calcula ou que não procede senão por interesse.
É uma questão que me ocupa muito tempo , convencer-me de que o calculismo não é intrinsecamente mau . Se calhar é . Sempre que se ouve a palavra é em tom depreciativo.Pelo menos sei que os cálculos estão muitas vezes errados , os meus e os dos outros , que a vida está cheia de coisas incalculáveis e tenho uma definição larga de "interesse".
Enfim , espero lá mais para o Verão ter isto tudo mais organizado e voltar aqui aos episódios , histórias , opiniões e alguns disparates . Entretanto podem ver este vídeo do Rofe na praia a começar a nadar.
17.4.12
Ontem foi um dia excelente , não só pelo tempo ideal que tem estado.Começam a chegar as aves de arribação , as propriamente ditas e as figurativas.Chegou o primeiro veleiro transatlântico da estação , francês . O cão nadou pela primeira vez e uma família de franceses que passa aí férias estava a lançar um hobie cat. Estive a discutir com um rapaz daí a possibilidade de pôr um mastro e uma vela na lancha de pesca , que é dos principais meios de subsistência dele. Acho que se pode fazer , não vai ficar bonito nem o barco alguma vez pode depender só da vela , mas pode-se engendrar uma armação que permite sempre aproveitar ventos de popa , poupando-se muitas vezes metade do gasóleo de cada viagem.Dito isto ainda não vi a lancha , mas ficámos de ver isso. Há empresas a vender velas semelhantes a pára quedas gigantes que são usadas em navios , permitindo poupar toneladas de fuel.É uma versão gigantesca de kite surf , assim um kite tanker . Também gosto da ideia , e talvez ainda a veja concretizar-se no meu tempo , de um reviver dos transportes marítimos à vela. Para muita gente isto soa a cenário pós apocalíptico mas eu consigo ver um certo potencial natural nisso. Aliás , muito potencial.
15.4.12
Sata quase em greve
Na semana passada um título de um jornal era “ pilotos da SATA vão fazer greve em Maio” , ia-me dando um ataque porque vou voar para Lisboa em Maio , e tem que ser com a SATA.
Como as ligações para aqui já são os serviços mínimos , as greves (e a falta de vergonha) não as ameaçam , mas há depois as ligações para Lisboa.Se apanhasse a greve voava noutro dia sem pagar mais mas tenho uma ligação 10 horas depois para Manchester e em caso de greve da SATA a British Airways dizia-me “temos pena que tenha perdido o seu voo , pode comprar aqui outro bilhete ” , já para não falar dos compromissos em Inglaterra que iam ficar cancelados com grandes transtornos e prejuízos . A esses e aos de centenas de passageiros , que pagam os ordenados da SATA , os sindicatos encolhem os ombros. É um direito adquirido encravar a vida dos outros para exigir mais dinheiro , desculpem , condições de trabalho dignas , mas só resulta se temos o poder de perturbar alguma coisa parando de trabalhar.
Depois respirei fundo porque as datas que os pilotos explorados que vivem no limiar da miséria previam para parar de trabalhar não eram as dos meus voos . Pouco depois li que a SATA estava “disposta a negociar” , o que se traduz por “disposta a ceder à chantagem” , pelo que todas ligações estão asseguradas.
A SATA é do Estado e rio-me cada vez que ouço dizer que não dá prejuízo.Não dá prejuízo porque todos os anos entra na contabilidade uma injecção de milhões do erário público, assim nenhuma empresa dá prejuízo . É naturalmente preciso assegurar as ligações entre as ilhas , e nenhum privado o ia fazer , pelo menos para aqui , já vim e fui várias vezes em aviões com meia dúzia de passageiros . Se o Estado tem que assegurar estas ligações , com prejuízo se for preciso , já me custa muito mais ver a SATA a anunciar voos do Porto para Copenhaga por 59€ enquanto que daqui para o Porto se pagam mais de 300 . Eu sei que há mais gente a querer ir a Copenhaga do que a querer vir para aqui , mas as ligações entre Portugal e a Dinamarca já estão asseguradas há muito tempo , e a menos que me digam que é uma rota que dá muito dinheiro , acho que a SATA se devia concentrar nas Ilhas , racionalizar o serviço e deixar e Escandinávia em paz.
Ainda me custou mais ouvir ontem o presidente do Governo Regional , Carlos César ,todo contente a afirmar em Porto Alegre , Brasil , que a SATA deve poder voar em breve para lá , ou seja , a oferecer os serviços da SATA em mercados que estão servidos por privados , e custa-me a aceitar a importância para a população dos Açores de poder voar directamente para o Brasil , excepto para os que fazem lá férias , não serão muitos , serão todos os altos funcionários e responsáveis do Governo Regional e das empresas públicas , o que pode ajudar a explicar alguma coisa.
Ouvi na mesma declaração o chefe do governo a enaltecer a vontade e trabalho do Governo Regional a apoiar e apostar no empreendedorismo e inovação , e lembrei-me de que há semanas , vai para meses , que aguardo 3 pareceres e pedidos de informação de departamentos e direcções gerais regionais relativas ao meu projecto. Não são pedidos de apoio , não são pedidos de autorização ( isso vai ser outro castigo , lá mais para a frente) , são pareceres e pedidos de informação dos quais dependem investimentos e obras . Calculo que a Direcção Regional da Economia , a da Cultura e o IRAE estejam tão assoberbados com projectos de investimento e instalação de novas empresas nos Açores que ainda não tiveram tempo de responder , ou de ter aquela cortesia comum , ou que devia ser comum, de acusar a recepção do pedido e dizer que está em apreciação ,mesmo que não esteja . A estes pedidos de pareceres e informação junta-se o processo de actualização de um artigo de um prédio nas finanças e na Câmara , está pendente vai para um mês , e entretanto o Secretário Regional da Economia demitiu-se para começar a fazer campanha eleitoral , é candidato nas eleições daqui a 6 meses. A economia pode esperar mais um bocadinho .
Quando é para fazer o trabalho do Estado ( informar , licenciar , autorizar , fiscalizar , regular) , leva tudo meses . Quando é para brincar aos empresários e fazer propaganda com dinheiro do contribuinte ( promover rotas aéreas , construir restaurantes , criar empresas municipais) , são de uma eficiência incrível .
Como as ligações para aqui já são os serviços mínimos , as greves (e a falta de vergonha) não as ameaçam , mas há depois as ligações para Lisboa.Se apanhasse a greve voava noutro dia sem pagar mais mas tenho uma ligação 10 horas depois para Manchester e em caso de greve da SATA a British Airways dizia-me “temos pena que tenha perdido o seu voo , pode comprar aqui outro bilhete ” , já para não falar dos compromissos em Inglaterra que iam ficar cancelados com grandes transtornos e prejuízos . A esses e aos de centenas de passageiros , que pagam os ordenados da SATA , os sindicatos encolhem os ombros. É um direito adquirido encravar a vida dos outros para exigir mais dinheiro , desculpem , condições de trabalho dignas , mas só resulta se temos o poder de perturbar alguma coisa parando de trabalhar.
Depois respirei fundo porque as datas que os pilotos explorados que vivem no limiar da miséria previam para parar de trabalhar não eram as dos meus voos . Pouco depois li que a SATA estava “disposta a negociar” , o que se traduz por “disposta a ceder à chantagem” , pelo que todas ligações estão asseguradas.
A SATA é do Estado e rio-me cada vez que ouço dizer que não dá prejuízo.Não dá prejuízo porque todos os anos entra na contabilidade uma injecção de milhões do erário público, assim nenhuma empresa dá prejuízo . É naturalmente preciso assegurar as ligações entre as ilhas , e nenhum privado o ia fazer , pelo menos para aqui , já vim e fui várias vezes em aviões com meia dúzia de passageiros . Se o Estado tem que assegurar estas ligações , com prejuízo se for preciso , já me custa muito mais ver a SATA a anunciar voos do Porto para Copenhaga por 59€ enquanto que daqui para o Porto se pagam mais de 300 . Eu sei que há mais gente a querer ir a Copenhaga do que a querer vir para aqui , mas as ligações entre Portugal e a Dinamarca já estão asseguradas há muito tempo , e a menos que me digam que é uma rota que dá muito dinheiro , acho que a SATA se devia concentrar nas Ilhas , racionalizar o serviço e deixar e Escandinávia em paz.
Ainda me custou mais ouvir ontem o presidente do Governo Regional , Carlos César ,todo contente a afirmar em Porto Alegre , Brasil , que a SATA deve poder voar em breve para lá , ou seja , a oferecer os serviços da SATA em mercados que estão servidos por privados , e custa-me a aceitar a importância para a população dos Açores de poder voar directamente para o Brasil , excepto para os que fazem lá férias , não serão muitos , serão todos os altos funcionários e responsáveis do Governo Regional e das empresas públicas , o que pode ajudar a explicar alguma coisa.
Ouvi na mesma declaração o chefe do governo a enaltecer a vontade e trabalho do Governo Regional a apoiar e apostar no empreendedorismo e inovação , e lembrei-me de que há semanas , vai para meses , que aguardo 3 pareceres e pedidos de informação de departamentos e direcções gerais regionais relativas ao meu projecto. Não são pedidos de apoio , não são pedidos de autorização ( isso vai ser outro castigo , lá mais para a frente) , são pareceres e pedidos de informação dos quais dependem investimentos e obras . Calculo que a Direcção Regional da Economia , a da Cultura e o IRAE estejam tão assoberbados com projectos de investimento e instalação de novas empresas nos Açores que ainda não tiveram tempo de responder , ou de ter aquela cortesia comum , ou que devia ser comum, de acusar a recepção do pedido e dizer que está em apreciação ,mesmo que não esteja . A estes pedidos de pareceres e informação junta-se o processo de actualização de um artigo de um prédio nas finanças e na Câmara , está pendente vai para um mês , e entretanto o Secretário Regional da Economia demitiu-se para começar a fazer campanha eleitoral , é candidato nas eleições daqui a 6 meses. A economia pode esperar mais um bocadinho .
Quando é para fazer o trabalho do Estado ( informar , licenciar , autorizar , fiscalizar , regular) , leva tudo meses . Quando é para brincar aos empresários e fazer propaganda com dinheiro do contribuinte ( promover rotas aéreas , construir restaurantes , criar empresas municipais) , são de uma eficiência incrível .
13.4.12
Concertos A1
Uma das razões de queixa que tenho da Antena 1 é-me outra vez lembrada hoje , são 8 horas e como sempre está a começar mais um "concerto Antena 1" , desta vez , pela décima vez pelo menos , é uma brasileira chamada Maria Gadu. Não tenho nada contra a senhora nem contra a ideia de a A1 transmitir todos os dias um concerto a esta hora , mas tira-me do sério que repitam cerca de 7 ou 8 concertos , sempre em círculo. Já ouvi pelo menos 6 vezes o Paulo Praça , os Clã , esta Gadu , uma Patrícia Vasconcelos , dois ou três fadistas , o Paco Bandeira e vários brasileiros avulsos.
As 20 horas são o horário nobre , os directores da A1 Açores devem pensar que toda a gente está a ver televisão ou se estão a ouvir rádio são malucos que não reparam que todas as semanas repetem os concertos. Todas. São apresentados por uma vulgária cuja função é dizer "fui lá ver ; foi espectacular ; foi um momento único ; grandes músicos" , e para isso calculo que receba mais que o ordenado mínimo.
Tive a sorte de trabalhar em rádio , e o facto de ter sido há mais de 10 anos só me ajuda a afirmar que não custa muito fazer uma hora de emissão , mesmo em diferido. Não custa mesmo nada , hoje ainda deve ser mais simples: sentamo-nos ao computador , alinhamos umas músicas , introduzimos uns separadores , dizemos umas coisinhas sobre as músicas , o tempo ou o que seja e está cheia a hora . Podemos gravá-la à hora que nos apetecer e introduzi-la no alinhamento geral .
O facto de a A1 repetir incansavelmente os mesmos concertos ( já me queixei ao Provedor) , por melhores que eles sejam ( gosto muito do do Paulo Praça , já sei o alinhamento de cor ) demonstra desleixo , preguiça , pouco profissionalismo e falta de respeito pela minoria de ouvintes fiéis que , ó espanto , não está em frente à televisão às 8 da noite.
Se tiver resposta do Provedor do Ouvinte logo digo , e vou-me lembrando disto enquanto pago a taxa e os impostos que sustentam esta rapaziada.
As 20 horas são o horário nobre , os directores da A1 Açores devem pensar que toda a gente está a ver televisão ou se estão a ouvir rádio são malucos que não reparam que todas as semanas repetem os concertos. Todas. São apresentados por uma vulgária cuja função é dizer "fui lá ver ; foi espectacular ; foi um momento único ; grandes músicos" , e para isso calculo que receba mais que o ordenado mínimo.
Tive a sorte de trabalhar em rádio , e o facto de ter sido há mais de 10 anos só me ajuda a afirmar que não custa muito fazer uma hora de emissão , mesmo em diferido. Não custa mesmo nada , hoje ainda deve ser mais simples: sentamo-nos ao computador , alinhamos umas músicas , introduzimos uns separadores , dizemos umas coisinhas sobre as músicas , o tempo ou o que seja e está cheia a hora . Podemos gravá-la à hora que nos apetecer e introduzi-la no alinhamento geral .
O facto de a A1 repetir incansavelmente os mesmos concertos ( já me queixei ao Provedor) , por melhores que eles sejam ( gosto muito do do Paulo Praça , já sei o alinhamento de cor ) demonstra desleixo , preguiça , pouco profissionalismo e falta de respeito pela minoria de ouvintes fiéis que , ó espanto , não está em frente à televisão às 8 da noite.
Se tiver resposta do Provedor do Ouvinte logo digo , e vou-me lembrando disto enquanto pago a taxa e os impostos que sustentam esta rapaziada.
12.4.12
Electricidade II
Os últimos governos puseram , ou disseram que punham , bastante ênfase nas energias renováveis, com os resultados que pessoas como eu esperam quando os governos se dedicam a orientar e condicionar a produção e as escolhas dos cidadãos. Gostava de ver as contas do investimento estatal nas eólicas , feito com subsídios e vantagens fiscais que o comum dos mortais desconhece e se conhecesse talvez mudasse de idéias sobre a ameaça do CO2 , e gostava também de saber o que é que estamos a ganhar com isso , nós que não temos empresas de equipamentos energéticos. Eu quero tanto salvar o planeta como o próximo , mas não quero pagar 10 ou 20€ a mais por mês na factura da luz para uma eventual e quase inverificável quebra nas emissões de CO2 , por mais que estrebuchem os ambientalistas radicais , os mesmos que nos anos 90 nos diziam que o petróleo acabava ontem.
Acho fundamental saber a relação custo-benefício das coisas , mas se isso já é difícil na nossa vida quotidiana , quando se trata de governos e estados é virtualmente impossível , pelo menos de maneira acessível aos não especialistas como eu , que gostavam de ver um responsável do Ambiente vir dizer com clareza : entre 2000 e 2010 gastámos X milhões em apoio e incentivo às energias renováveis ; a qualidade do ar melhorou em Y% ; a quota de produção a partir de renováveis subiu Z% e o preço da electricidade ao consumidor passou de X para Y. Com essa informação toda a gente podia formar uma opinião sólida sobre o assunto , como não a temos isto é feito de palpites , politiquice , ideologia , expectativas e decisões individuais.
Li no outro dia no Expresso um artigo de dois professores catedráticos que pretendia explicar e desmistificar a co-geração , não percebi metade porque os especialistas tendem a escrever para os seus pares e partem do princípio que as pessoas não só partilham a sua linguagem como têm as mesmas bases sobre o assunto.
Fiz o meu orçamento para montar um sistema independente , solar e eólico , para a minha casa. Uma instalação fiável , completa e eficiente ficava-me em 2500€ , contas redondas , transportes incluídos. Por 300€ a EDA liga-me à rede e calculo que vou gastar cerca de 20€ por mês , ou seja , mesmo considerando que os preços vão subir e que posso querer mais electrodomésticos no futuro , levo uns 10 anos a pagar o investimento , para não falar da manutenção e dos problemas de desgaste do equipamento , que não dura 10 anos digam o que disserem os fabricantes. Como as empresas como a EDP recebem subsídios chorudos e opacos para gerar electricidade a partir de renováveis mas os particulares pagam tudo a preço de mercado , vou ter que usar o meu orçamento para a energia de maneira racional , já que não trabalho com o dinheiro dos outros e tenho problemas mais prementes que os níveis de CO2 e a poluição , especialmente vivendo onde vivo. Vou ter uma aproximação mista , ou seja , ligo-me à rede mas faço a instalação principal da casa para 12V à mesma , com uma bateria que é carregada a partir dos 220V da rede. Mantenho o meu objectivo de simplicidade mas consumo energia “normal”. Acredito que a tecnologia vá melhorar e descer de preço e talvez um dia tenha 2 ou 3 mil euros para comprar a eólica, os painéis solares ,os reguladores e as baterias mas entretanto assino contrato com a empresa da electricidade.
Com estes cálculos e orçamentos descobri que vou ter que pagar 2,5€ por mês para a "contribuição audio visual" , fiquei pasmado. Isto é a velha taxa da televisão , e a única maneira de fazerem as pessoas pagar pelos vistos foi juntá-la à conta da luz. Eu não só não tenho nem quero ter televisão como acho que o Estado não tem , em 2012 , justificação nenhuma para ser dono e gerente de um canal de televisão a não ser para continuar a forrar aquilo de incompetentes e amigos e poder fazer passar a mensagem.
Podem-me dizer que 30€ por ano é barato para assegurar os arquivos e tal , discordo. Não há nenhuma taxa directa para a manutenção da Torre do Tombo , que acho mil vezes mais importante que os arquivos da RTP . E claro que não sou só eu que vou ter que pagar sem ter televisão , são milhões de pessoas que gostam , vêm e precisam de TV , mas não a RTP. Podem-me dizer que ouço a rádio pública , por isso devo contribuir, mas ouço-a porque não apanho outra e podia escrever duas páginas com críticas ao que tenho gramado este ano. Aceito argumentos a favor de subsídios estatais à rádio e televisão , porque por exemplo acho que nenhuma rádio dedicada à música clássica é economicamente viável , e é provável que seja importante existir uma , agora obrigar todas as pessoas que consomem electricidade a financiar o canal do Estado parece-me um abuso. Outro abuso.
Acho fundamental saber a relação custo-benefício das coisas , mas se isso já é difícil na nossa vida quotidiana , quando se trata de governos e estados é virtualmente impossível , pelo menos de maneira acessível aos não especialistas como eu , que gostavam de ver um responsável do Ambiente vir dizer com clareza : entre 2000 e 2010 gastámos X milhões em apoio e incentivo às energias renováveis ; a qualidade do ar melhorou em Y% ; a quota de produção a partir de renováveis subiu Z% e o preço da electricidade ao consumidor passou de X para Y. Com essa informação toda a gente podia formar uma opinião sólida sobre o assunto , como não a temos isto é feito de palpites , politiquice , ideologia , expectativas e decisões individuais.
Li no outro dia no Expresso um artigo de dois professores catedráticos que pretendia explicar e desmistificar a co-geração , não percebi metade porque os especialistas tendem a escrever para os seus pares e partem do princípio que as pessoas não só partilham a sua linguagem como têm as mesmas bases sobre o assunto.
Fiz o meu orçamento para montar um sistema independente , solar e eólico , para a minha casa. Uma instalação fiável , completa e eficiente ficava-me em 2500€ , contas redondas , transportes incluídos. Por 300€ a EDA liga-me à rede e calculo que vou gastar cerca de 20€ por mês , ou seja , mesmo considerando que os preços vão subir e que posso querer mais electrodomésticos no futuro , levo uns 10 anos a pagar o investimento , para não falar da manutenção e dos problemas de desgaste do equipamento , que não dura 10 anos digam o que disserem os fabricantes. Como as empresas como a EDP recebem subsídios chorudos e opacos para gerar electricidade a partir de renováveis mas os particulares pagam tudo a preço de mercado , vou ter que usar o meu orçamento para a energia de maneira racional , já que não trabalho com o dinheiro dos outros e tenho problemas mais prementes que os níveis de CO2 e a poluição , especialmente vivendo onde vivo. Vou ter uma aproximação mista , ou seja , ligo-me à rede mas faço a instalação principal da casa para 12V à mesma , com uma bateria que é carregada a partir dos 220V da rede. Mantenho o meu objectivo de simplicidade mas consumo energia “normal”. Acredito que a tecnologia vá melhorar e descer de preço e talvez um dia tenha 2 ou 3 mil euros para comprar a eólica, os painéis solares ,os reguladores e as baterias mas entretanto assino contrato com a empresa da electricidade.
Com estes cálculos e orçamentos descobri que vou ter que pagar 2,5€ por mês para a "contribuição audio visual" , fiquei pasmado. Isto é a velha taxa da televisão , e a única maneira de fazerem as pessoas pagar pelos vistos foi juntá-la à conta da luz. Eu não só não tenho nem quero ter televisão como acho que o Estado não tem , em 2012 , justificação nenhuma para ser dono e gerente de um canal de televisão a não ser para continuar a forrar aquilo de incompetentes e amigos e poder fazer passar a mensagem.
Podem-me dizer que 30€ por ano é barato para assegurar os arquivos e tal , discordo. Não há nenhuma taxa directa para a manutenção da Torre do Tombo , que acho mil vezes mais importante que os arquivos da RTP . E claro que não sou só eu que vou ter que pagar sem ter televisão , são milhões de pessoas que gostam , vêm e precisam de TV , mas não a RTP. Podem-me dizer que ouço a rádio pública , por isso devo contribuir, mas ouço-a porque não apanho outra e podia escrever duas páginas com críticas ao que tenho gramado este ano. Aceito argumentos a favor de subsídios estatais à rádio e televisão , porque por exemplo acho que nenhuma rádio dedicada à música clássica é economicamente viável , e é provável que seja importante existir uma , agora obrigar todas as pessoas que consomem electricidade a financiar o canal do Estado parece-me um abuso. Outro abuso.
10.4.12
Crescente e minguante
Escrevi aí em baixo que estávamos no quarto crescente , o que é obviamente falso , e fiquei a pensar em como é que me tinha enganado e combinado a tosquia para amanhã. Acontece que segundo o Borda D'Agua em Maio as ovelhas tosquiam-se no crescente mas em Abril é no minguante . Esta mudança de fases da lua indicadas para certas operações consoante o mês torna a coisa muito mais misteriosa e faz-me pensar mais sobre a sabedoria do Borda D'Agua e das tradições camponesas nacionais. Tal como a maior parte das pessoas não tenho dúvidas sobre a influência da Lua em tudo o que vive e mexe à face da Terra , agora porque carga de água é que se tosquia no minguante em Abril e no crescente em Maio já me faz muita confusão. Apesar disso continuo a confiar no Borda D'Agua e o cão confirma-me o aforismo deste mês no almanaque : em Abril cada pulga dá mil
Dia de Tosquia
Amanhã é dia de tosquia , mais um dia para me lembrar que este rebanho foi provavelmente a decisão mais anti económica que tomei na vida , se exceptuarmos certas decisões tomadas de madrugada quando era mais novo.
Entre os próprios bichos , as cercas , as rações , os comedores , a silagem e as horas e horas de trabalho já vai em milhares de euros de investimento, mas hoje fui buscar um cheque com o primeiro rendimento da exploração : 18€ de um borrego que vendi para o talho da Associação , pelo que estou a pagar o meu investimento mais ou menos ao ritmo que Portugal está a pagar a dívida externa, e com as mesmas hipóteses de equilibrar o orçamento.
Então amanhã vem um especialista tosquiar-me os bichos por 5€ por cabeça , vão ficar muito mais confortáveis e vou ficar com um monte de lã bruta que vai crescendo porque mais pessoas sabem que eu penso que alguma vez vou conseguir dar-lhe uso e vão-me oferecendo a lã que para eles é lixo. Vão ser mais umas horas boas a limpar e separar a lã e depois vai para o isolamento do telhado , que espero pôr em Junho e também espero não ficar com a casa com um certo aroma a ovelha , que não me desagrada mas não é exactamente a fragrância que eu escolhia para a minha casa.
A tosquia é amanhã porque estamos no quarto Crescente , que é quando o Borda D'Agua diz que se tosquiam as ovelhas , e certas coisas não se discutem.
Entretanto há muita urgência em reduzir o efectivo porque como eu temia não tenho maneira de continuar a alimentar 7 ovelhas e um carneiro na minha terra que já tem bocados tão rapados que parecem o Sahel . Esta semana vai ser despachada outra , sem ser via matadouro e talho , é um amigo que a mata e desmancha por metade da carcaça, fico com a outra metade e com o congelador cheio de ovelha . Já procurei na Amazon mas não há livros dedicados a receitas de ovelha para gajos que não sabem cozinhar , pelo que vai ser consumida como todas as outras carnes que passam pela minha cozinha , é de fazer arrepiar os gastrónomos.
Já perdi as esperanças de encontrar uma pastagem decente à venda , vou-me sentar e esperar tranquilamente até 2014 , quando acabam os subsídios agrícolas e quando os efeitos da recessão vão estar mesmo instalados , não vai haver falta de terras à vendas , vou ter escolha e preços baixos e vou poder ter um rebanho em condições. E nessa altura também espero que a lã já não seja vista como lixo.
Entre os próprios bichos , as cercas , as rações , os comedores , a silagem e as horas e horas de trabalho já vai em milhares de euros de investimento, mas hoje fui buscar um cheque com o primeiro rendimento da exploração : 18€ de um borrego que vendi para o talho da Associação , pelo que estou a pagar o meu investimento mais ou menos ao ritmo que Portugal está a pagar a dívida externa, e com as mesmas hipóteses de equilibrar o orçamento.
Então amanhã vem um especialista tosquiar-me os bichos por 5€ por cabeça , vão ficar muito mais confortáveis e vou ficar com um monte de lã bruta que vai crescendo porque mais pessoas sabem que eu penso que alguma vez vou conseguir dar-lhe uso e vão-me oferecendo a lã que para eles é lixo. Vão ser mais umas horas boas a limpar e separar a lã e depois vai para o isolamento do telhado , que espero pôr em Junho e também espero não ficar com a casa com um certo aroma a ovelha , que não me desagrada mas não é exactamente a fragrância que eu escolhia para a minha casa.
A tosquia é amanhã porque estamos no quarto Crescente , que é quando o Borda D'Agua diz que se tosquiam as ovelhas , e certas coisas não se discutem.
Entretanto há muita urgência em reduzir o efectivo porque como eu temia não tenho maneira de continuar a alimentar 7 ovelhas e um carneiro na minha terra que já tem bocados tão rapados que parecem o Sahel . Esta semana vai ser despachada outra , sem ser via matadouro e talho , é um amigo que a mata e desmancha por metade da carcaça, fico com a outra metade e com o congelador cheio de ovelha . Já procurei na Amazon mas não há livros dedicados a receitas de ovelha para gajos que não sabem cozinhar , pelo que vai ser consumida como todas as outras carnes que passam pela minha cozinha , é de fazer arrepiar os gastrónomos.
Já perdi as esperanças de encontrar uma pastagem decente à venda , vou-me sentar e esperar tranquilamente até 2014 , quando acabam os subsídios agrícolas e quando os efeitos da recessão vão estar mesmo instalados , não vai haver falta de terras à vendas , vou ter escolha e preços baixos e vou poder ter um rebanho em condições. E nessa altura também espero que a lã já não seja vista como lixo.
8.4.12
Piscinas e iates
Há anúncios que me deixam espantado e não sei se fico com vontade de rir ou chorar. Por alguma razão que me escapa as publicidades na televisão nos intervalos dos jogos de futebol são principalmente de cosméticos e de uns produtos que fazem perder peso até enquanto se dorme. A diferença entre esses produtos e a boa e velha banha de cobra é que estes modernos vendem muito. Se não vendessem muito não investiam tanto em publicidade tão cara , pelo que há dezenas de milhar de pessoas a gastar centenas em comprimidos que eliminam gorduras excessivas. Estas pessoas não só votam como andam aí a reclamar da crise .
Outro parece-me bastante pior ,e é de uma empresa de crédito , é fácil , é só ligar. Eu vou ser o último a falar contra o crédito , mas há várias espécies de crédito. Há o crédito pedido por governantes que não vão ter que o pagar ; há o crédito pedido por empresas e particulares para investir ; há o crédito pedido por empresas e particulares para sair de dificuldades e depois há o crédito pedido por particulares para fazer figura e se enterrarem . Uma das coisas que me fazia mais impressão durante o nosso boomzinho económico era saber que havia dezenas de milhar de pessoas a pedir dinheiro emprestado para passar férias no estrangeiro . Ainda nesta Páscoa parece que os Portugueses esgotaram Cabo Verde , não terão todos pago a pronto e se bem que o financimento destas coisas está muito mais difícil aposto que muitos deles pagaram com o seu cartão de crédito , que faz um empréstimo curto a taxas extorcionárias parecer um uso especial do cartão e um privilégio concedido pelo banco .
A Cofidis mostra nas suas publicidades que está atenta e quer promover e apoiar os investimentos de que Portugal e os Portugueses tanto precisam : Um moço investe 10 mil euros em material de fotografia , outra moça pede 10 mil euros para ir a Nova Iorque estudar cinema e uma família entusiasmadíssima planeia uma piscina. É sabido que Portugal precisa muito de mais fotógrafos , cineastas e piscinas .
Não é preciso ter ou ter tido uma piscina para saber que melhor que ter uma é ter um amigo com uma , e isto aplica-se igualmente aos iates. Passei muitos anos a responder o mais diplomaticamente possível quando me perguntavam sobre compras de iates , mas como não era capaz de enganar ninguém e vi muita gente ser enganada , dizia sempre que um iate só é um investimento se pensarmos em viver nele. Se for para usar de vez em quando , é um sorvedouro de dinheiro , um passivo crescente com mil despesas acessórias que passam despercebidas no encanto da compra. Os vendedores de iates nunca dizem isso , naturalmente , e calculo que os de piscinas também não. O custo e tempo de construção e o custo de manutenção de uma piscina familiar fazem cada mergulho custar centenas de euros , ou seja , sai muito mais barato pegar na família e ir passar um fim de semana a um hotel com piscina quando apetece do que fazer uma no quintal , tal como sai muito mais barato e simples meter a família num avião para as Caraíbas ou a Turquia e alugar lá um barco por uma semana ou duas por ano do que comprar um.
Mas a semelhança maior entre os iates , piscinas e outros bens de luxo , que me ocorreu ao ver o anúncio do senhor felicíssimo a preparar-se para pedir um empréstimo , é esta: se temos que perguntar o preço e fazer contas a ver se podemos comprar uma coisa é porque não temos posses para ter essa coisa. Simples.
Outro parece-me bastante pior ,e é de uma empresa de crédito , é fácil , é só ligar. Eu vou ser o último a falar contra o crédito , mas há várias espécies de crédito. Há o crédito pedido por governantes que não vão ter que o pagar ; há o crédito pedido por empresas e particulares para investir ; há o crédito pedido por empresas e particulares para sair de dificuldades e depois há o crédito pedido por particulares para fazer figura e se enterrarem . Uma das coisas que me fazia mais impressão durante o nosso boomzinho económico era saber que havia dezenas de milhar de pessoas a pedir dinheiro emprestado para passar férias no estrangeiro . Ainda nesta Páscoa parece que os Portugueses esgotaram Cabo Verde , não terão todos pago a pronto e se bem que o financimento destas coisas está muito mais difícil aposto que muitos deles pagaram com o seu cartão de crédito , que faz um empréstimo curto a taxas extorcionárias parecer um uso especial do cartão e um privilégio concedido pelo banco .
A Cofidis mostra nas suas publicidades que está atenta e quer promover e apoiar os investimentos de que Portugal e os Portugueses tanto precisam : Um moço investe 10 mil euros em material de fotografia , outra moça pede 10 mil euros para ir a Nova Iorque estudar cinema e uma família entusiasmadíssima planeia uma piscina. É sabido que Portugal precisa muito de mais fotógrafos , cineastas e piscinas .
Não é preciso ter ou ter tido uma piscina para saber que melhor que ter uma é ter um amigo com uma , e isto aplica-se igualmente aos iates. Passei muitos anos a responder o mais diplomaticamente possível quando me perguntavam sobre compras de iates , mas como não era capaz de enganar ninguém e vi muita gente ser enganada , dizia sempre que um iate só é um investimento se pensarmos em viver nele. Se for para usar de vez em quando , é um sorvedouro de dinheiro , um passivo crescente com mil despesas acessórias que passam despercebidas no encanto da compra. Os vendedores de iates nunca dizem isso , naturalmente , e calculo que os de piscinas também não. O custo e tempo de construção e o custo de manutenção de uma piscina familiar fazem cada mergulho custar centenas de euros , ou seja , sai muito mais barato pegar na família e ir passar um fim de semana a um hotel com piscina quando apetece do que fazer uma no quintal , tal como sai muito mais barato e simples meter a família num avião para as Caraíbas ou a Turquia e alugar lá um barco por uma semana ou duas por ano do que comprar um.
Mas a semelhança maior entre os iates , piscinas e outros bens de luxo , que me ocorreu ao ver o anúncio do senhor felicíssimo a preparar-se para pedir um empréstimo , é esta: se temos que perguntar o preço e fazer contas a ver se podemos comprar uma coisa é porque não temos posses para ter essa coisa. Simples.
6.4.12
3.4.12
Polícia de Choque
No plano moral , podem-me dizer que se estamos contra o Governo e não lhe reconhecemos legitimidade , e sendo a polícia a face visível da autoridade do Governo , não só é um direito como um dever afrontá-la. Até podia concordar , mas acho que a polícia representa mais o Estado que o Governo , é verdade que também há quem seja contra o Estado em geral , mas com esses não se pode discutir . Há muitas formas de protesto e manifestação que não passam por desordens , insultos e agressões , como de resto provam as centrais sindicais há muitos anos. Se não somos anarquistas temos que partir do princípio que a polícia é precisa e tem que ser respeitada. Eu nasci em 73 , sempre vivi em liberdade e democracia pelo que me posso sentir oprimido e ameaçado por muitas coisas mas a polícia não é certamente uma delas. Muito simplesmente , cumprir a lei pode não nos trazer mil recompensas mas permite-nos não ter nada a temer da polícia (os tribunais são outra coisa ) , e da de choque ainda menos. Chamem-me ingénuo ou priviligiado mas eu acredito que a polícia existe para me servir e até ver não tenho provas em contrário.
Tive a sorte de estar em países onde , para não me alongar e porque todos vemos imagens do mundo , as coisas funcionam de uma maneira muito diferente , a polícia é um perigo , só responde aos seus chefes e usa a violência quer haja tensão social quer não , pelo que acho uma certa piada ao tom de ultraje com que se encararam os “incidentes do Chiado” e o que se diz às vezes da polícia portuguesa.
Eu sei , não podemos ter os padrões do Mali nem ficar satisfeitos se isto é melhor que a Bielorrússia mas isso não impede de distinguir entre um incidente com um polícia transtornado e violência e repressão polícial.
Os polícias de choque são treinados para não ferver em pouca água ou sentirem -se pessoalmente insultados quando no fundo o que lhe insultam é o uniforme e o trabalho ( o que não deixa de ser insulto grave ) , mas as pessoas também não se podem espantar se quando chega as voz de avançar , depois de horas a ouvir tudo , um homem vá com muito mais entusiasmo e menos discernimento.
Era muito pedagógico que o Ministério da Administração Interna fizesse uma campanha a explicar como é que trabalha a polícia de choque , quando são chamados e não , quantos mandam em quantos , quem tem autoridade para mandar fazer o quê e em que circunstâncias , o que é que desencadeia uma carga e pormenores desses.
As claques de futebol sabem bem onde é que está traçada linha , de que lado da linha é que a polícia está lá para os “enquadrar” e de que lado é que começa ferver bastonada. Há um mundo a aprender sobre estas coisas por exemplo acompanhando a Juve Leo ao Estádio da Luz . Os hooligans não são completamente estúpidos , interessam-se por arruaças e por brigar com os do outro clube mas raramente estão interessados em só levar porrada que é o que acontece sempre que se metem com a polícia. Aos manifestantes indignados falta-lhes talvez perceber isso e planear de acordo, a menos que parte da estratégia seja mesmo provocar reacções violentas.
Este pessoal não é o Povo em luta , como toda a gente reparou há muito tempo . Chamar movimento político a esses grupos de jovens contestatários é como dizer que eu e o meu vizinho temos aqui um think tank .
Tenho pena que a fotógrafa que levou a bastonada no Chiado não tivesse conseguido fazer o seu trabalho a uma distância segura . Se é de confrontos que estamos a falar , como assegura muita da imprensa , tenho ideia que os repórteres de guerra bons e que não querem morrer não se vão pôr directamente na linha de fogo , no espaço físico entre os “beligerantes” , que era onde estava esta enquanto fotografava o seu namorado ( o rapaz do carrapito na famosa foto) a lutar contra as desigualdades , o desemprego e o aumento do custo de vida por meio de insultos à polícia e uma ou outra garrafa ou cadeira de esplanada arremessada com indignação . Tempos heróicos .
30.3.12
Conectividade
Ter internet em casa veio-me perturbar as rotinas e não fiquei muito satisfeito .
Uma pessoa organiza-se , já é quase um ano aqui e tenho-me desenrascado perfeitamente , a “quebra de produtividade” por ter que ir à biblioteca ou ao wifi publico não é significativa quando penso mesmo no que é que preciso da net . A lentidão da ligação em si é um problema , mas na biblioteca há que fazer o que é preciso naquelas horas e faz-se , ao passo que em casa se perdem horas com coisas que no fundo não interessam . A atenção desvia-se , há mil coisas interessantes , outras que só nos fazem perder tempo e no fundo não adiantam nem atrasam .
Ontem cheguei a casa depois de ter visto mais uma vitória europeia do Sporting, já passava das 9, sentei-me ao computador e demorei 12 minutos para carregar e rever o golo do Izmailov , por ali fiquei em distracções como o facebook e dei por mim eram 10 e ainda não tinha jantado. Estava a acabar de jantar quando o vizinho (e amigo, fomos à vela daqui para o Canadá em 2005) me bateu à porta e entre outras coisas me perguntou se eu já tinha arrumado o scrabble . Pareceu-me um sinal , e enquanto jogámos mais um da longa série de Inverno ( aceitam-se palavras pós acordo ortográfico , não tive argumentos para o impedir , mesmo sendo o dono do jogo) fui-me congratulando com a minha decisão de devolver a pen à PT e cancelar o contrato.
Durante quase um ano a rotina era levantar às 8.15 , abrir a porta ao cão , ir à casa de banho , dar comida ao cão , tomar o meu café enquanto lia um bocado do jornal (da semana anterior) , vestir-me e sair pelas 8 e meia . Agora ligo o computador para ver o email e acessórios e não saio antes das 10 , com a desculpa de que está a chover ou de que este email não pode esperar 5 horas. Se a ligação fosse ultra rápida provavelmente era pior , e de certeza que muitas vezes ficava a pé até de madrugada . Além disso as ovelhas também criaram a sua rotina e esperam comer por volta daquela hora , já me recebem com protestos , e o próprio cão já se viu muitas vezes na necessidade de me vir ladrar e saltar para cima porque passa das sete e ainda não jantou. Não pode ser , e além disso há os 15€ por mês que não chego a começar a gastar mas entram na coluna das poupanças à mesma . E o que também é importante , ou bem que se simplifica e descarta o acessório ou bem que se fala em simplificar e descartar o acessório.
Uma pessoa organiza-se , já é quase um ano aqui e tenho-me desenrascado perfeitamente , a “quebra de produtividade” por ter que ir à biblioteca ou ao wifi publico não é significativa quando penso mesmo no que é que preciso da net . A lentidão da ligação em si é um problema , mas na biblioteca há que fazer o que é preciso naquelas horas e faz-se , ao passo que em casa se perdem horas com coisas que no fundo não interessam . A atenção desvia-se , há mil coisas interessantes , outras que só nos fazem perder tempo e no fundo não adiantam nem atrasam .
Ontem cheguei a casa depois de ter visto mais uma vitória europeia do Sporting, já passava das 9, sentei-me ao computador e demorei 12 minutos para carregar e rever o golo do Izmailov , por ali fiquei em distracções como o facebook e dei por mim eram 10 e ainda não tinha jantado. Estava a acabar de jantar quando o vizinho (e amigo, fomos à vela daqui para o Canadá em 2005) me bateu à porta e entre outras coisas me perguntou se eu já tinha arrumado o scrabble . Pareceu-me um sinal , e enquanto jogámos mais um da longa série de Inverno ( aceitam-se palavras pós acordo ortográfico , não tive argumentos para o impedir , mesmo sendo o dono do jogo) fui-me congratulando com a minha decisão de devolver a pen à PT e cancelar o contrato.
Durante quase um ano a rotina era levantar às 8.15 , abrir a porta ao cão , ir à casa de banho , dar comida ao cão , tomar o meu café enquanto lia um bocado do jornal (da semana anterior) , vestir-me e sair pelas 8 e meia . Agora ligo o computador para ver o email e acessórios e não saio antes das 10 , com a desculpa de que está a chover ou de que este email não pode esperar 5 horas. Se a ligação fosse ultra rápida provavelmente era pior , e de certeza que muitas vezes ficava a pé até de madrugada . Além disso as ovelhas também criaram a sua rotina e esperam comer por volta daquela hora , já me recebem com protestos , e o próprio cão já se viu muitas vezes na necessidade de me vir ladrar e saltar para cima porque passa das sete e ainda não jantou. Não pode ser , e além disso há os 15€ por mês que não chego a começar a gastar mas entram na coluna das poupanças à mesma . E o que também é importante , ou bem que se simplifica e descarta o acessório ou bem que se fala em simplificar e descartar o acessório.
29.3.12
Publicidade MB
Venho do Multibanco onde me deparei com uma publicidade da Agência Abreu que convidava as pessoas a visitar os Açores, o que me parece dinheiro mal gasto ( a publicidade , não a visita).
Acho que a publicidade nas caixas automáticas é dos melhores meios que há , porque quase toda a gente usa aquilo ( Portugal é , ou pelo menos era , dos países mais avançados do mundo em utilização das caixas automáticas) e quando usamos uma não podemos evitar olhar para o écran enquanto a máquina faz as contas dela. Tal como é possível pôr uma publicidade no boletim meteorológico online para esta ilha , por exemplo , achei que seria possível seleccionar apenas umas determinadas caixas multibanco para uma campanha , e há uns tempos liguei para a empresa que gere essa publicidade , a Spectacolor. Afinal não , a "unidade" mais básica para uma campanha é o concelho , e no caso dos Açores nem isso , é mesmo a região toda.
Eu por exemplo queria apenas pôr anúncios em 4 terminais ( todos os da ilha) , mas só posso comprar uma campanha no Arquipélago inteiro. Vai-me interessar no futuro , custa 900 e tal € por uma semana , estimam eles 30 mil utilizações e "vistas" o que me parece bom negócio .
Acho que a Spectacolor tem uma bela oportunidade de melhorar os seus serviços e ofertas porque aposto que há muita gente que investia numa campanha no multibanco se pudesse escolher máquinas ou grupos de máquinas específicos , e tenho a impressão que isso não há-de ser tecnicamente muito difícil.
Um dia vão levantar dinheiro ou pagar a luz e aparece lá : "beba um café mesmo aqui ao lado".
Acho que a publicidade nas caixas automáticas é dos melhores meios que há , porque quase toda a gente usa aquilo ( Portugal é , ou pelo menos era , dos países mais avançados do mundo em utilização das caixas automáticas) e quando usamos uma não podemos evitar olhar para o écran enquanto a máquina faz as contas dela. Tal como é possível pôr uma publicidade no boletim meteorológico online para esta ilha , por exemplo , achei que seria possível seleccionar apenas umas determinadas caixas multibanco para uma campanha , e há uns tempos liguei para a empresa que gere essa publicidade , a Spectacolor. Afinal não , a "unidade" mais básica para uma campanha é o concelho , e no caso dos Açores nem isso , é mesmo a região toda.
Eu por exemplo queria apenas pôr anúncios em 4 terminais ( todos os da ilha) , mas só posso comprar uma campanha no Arquipélago inteiro. Vai-me interessar no futuro , custa 900 e tal € por uma semana , estimam eles 30 mil utilizações e "vistas" o que me parece bom negócio .
Acho que a Spectacolor tem uma bela oportunidade de melhorar os seus serviços e ofertas porque aposto que há muita gente que investia numa campanha no multibanco se pudesse escolher máquinas ou grupos de máquinas específicos , e tenho a impressão que isso não há-de ser tecnicamente muito difícil.
Um dia vão levantar dinheiro ou pagar a luz e aparece lá : "beba um café mesmo aqui ao lado".
28.3.12
Ideias e Debates
A primeira ideia é inspirada numa declaração genial do dr. Louçã que diz no I de hoje que as empresas que dão lucro devem ser proibidas de despedir trabalhadores durante a vigência do programa de ajuda externa. Pelo menos não diz "durante a vigência do Pacto de Agressão" , já não é mau , mas naturalmente que lucro é igual a injustiça e proibir está sempre na primeira linha das medidas.

Não sei se vocês têm a sorte de poder ter debates civilizados com pessoas de ideologias opostas , se têm e não são políticos profissionais já devem ter sofrido por falta de argumentos concretos para depois os encontrarem já tarde e fora de contexto , ou reparado que nessas discussões muitas vezes falta um fio condutor. A minha ideia resume-se a uma troca de livros . Cada parte oferece, empresta ou recomenda à outra um livro de sua escolha e ambas se comprometem a lê-lo em tempo útil , a fazer uma recensão e depois a discuti-lo .
Isto pode não converter ninguém mas alarga as vistas , obriga a pensar sobre argumentos contrários e cria uma estrutura para um debate mesmo produtivo. E depois , quem é que pode recusar? "Não me interessam as fundamentações do teu ponto de vista?" .
Inspirado nisto o que eu sugiro é o seguinte desafio : crie-se um fundo de 300 000 € , saído dos programas de apoio à economia que aí vêm e dentro dos quais essa verba é uma bagatela e dêem-se 100 mil ao Bloco de Esquerda e outro tanto à CGTP e ao PCP , e com este capital cada uma destas instituições deve escolher os seus melhores , à condição de serem militantes há pelo menos 5 anos , e criar uma empresa , tal como eles acham que as empresas devem ser . Se todos eles , a avaliar pelas críticas e propostas constantes , sabem qual é a solução para ter empresas competitivas e eficientes , esta era a oportunidade de mostrar o que valem as suas prescrições em matéria de regulamentos , salários , contratos de trabalho e obrigações das empresas. É uma verba suficiente servia para provar , ou não , que eles sabem como gerir , criar emprego e crescimento económico como nos estão sempre a lembrar , e têm boas ideias e soluções válidas. Era um investimento óptimo para o país . Aliás , até acho que era boa ideia para um privado , fazer esse desafio e financiá-lo.
Quanto mais ouço propostas como esta de hoje do Bloco e as elocubrações do Camarada Arménio mais me lembro dos críticos literários que nunca conseguiriam escrever um livro , dos jornalistas desportivos que nunca deram um pontapé numa bola e coisas do género.
A segunda ideia é relativa a uma forma de debate , é muito mais realista e fácil de executar , aliás , vou pô-la em práctica já com dois queridos e velhos amigos que estão firmemente plantados no campo da Esquerda radical .
Quanto mais ouço propostas como esta de hoje do Bloco e as elocubrações do Camarada Arménio mais me lembro dos críticos literários que nunca conseguiriam escrever um livro , dos jornalistas desportivos que nunca deram um pontapé numa bola e coisas do género.
A segunda ideia é relativa a uma forma de debate , é muito mais realista e fácil de executar , aliás , vou pô-la em práctica já com dois queridos e velhos amigos que estão firmemente plantados no campo da Esquerda radical .

Não sei se vocês têm a sorte de poder ter debates civilizados com pessoas de ideologias opostas , se têm e não são políticos profissionais já devem ter sofrido por falta de argumentos concretos para depois os encontrarem já tarde e fora de contexto , ou reparado que nessas discussões muitas vezes falta um fio condutor. A minha ideia resume-se a uma troca de livros . Cada parte oferece, empresta ou recomenda à outra um livro de sua escolha e ambas se comprometem a lê-lo em tempo útil , a fazer uma recensão e depois a discuti-lo .
Isto pode não converter ninguém mas alarga as vistas , obriga a pensar sobre argumentos contrários e cria uma estrutura para um debate mesmo produtivo. E depois , quem é que pode recusar? "Não me interessam as fundamentações do teu ponto de vista?" .
26.3.12
Projectos legais
O meu projecto da microcervejaria tem pouco mais de um ano mas já teve pelo menos 4 configurações possíveis , vai nesta altura na 5ª versão , que espero seja a final .
Depois da garagem de um amigo , de um prédio velho para recuperar , de uma barraca na minha propriedade e de um módulo pré-fabricado , tenho um acordo de compra para esse edifício da foto . Mesmo que alguma das soluções anteriores se realizasse o objectivo a longo prazo era instalar-me num edifício com carácter , como este , que tem muitas vantagens. É sabido que a cerveja é muito diferente se sair de um módulo pré fabricado ou de uma oficina assim, mesmo que seja absolutamente idêntica , por isso fiquei muito contente , a localização é óptima , tem um certo carisma , é tradicional e o interior está renovado , impecável e giro .
Estou optimista que dos biliões que re-capitalizaram os bancos sobrem uns trocos para fazer um crédito à minha empresa para comprar aquilo mais uns equipamentos e umas obrazinhas , sei bem que não é um projecto daqueles bons , tipo uma produtora de eventos, uma loja de roupa ou uma agência de viagens , é uma simples mini fábrica de cerveja , talvez não entre nos critérios das empresas a conceder crédito , e eu não sou de nenhum partido nem conheço ninguém mas tenho sempre esperança , confio no meu projecto e além disso pago juros como os outros pelo que em princípio interesso aos bancos.
Muito mais que o financiamento preocupa-me o licenciamento.
Em Portugal já foi muito pior mas licenciar uma empresa ainda é um calvário , é daqueles custos em tempo e dinheiro que afugentam investidores , dificultam a vida aos empresários e são a razão de ser de um exército de funcionários públicos que muitas vezes não tem noção nenhuma do que está a licenciar . Falam muito da Empresa na Hora , que foi de facto um grande avanço mas costumam esquecer-se de que é diferente criar uma empresa e obter a licença para trabalhar. Se a empresa tem a infelicidade de querer produzir alguma coisa em vez de prestar serviços ou vender coisas feitas por outros , é um percurso tortuoso e frustrante . Os licenciamentos de micro cervejarias comerciais em Portugal são mais que raros ( há só uma , que eu saiba , na Maia , a produzir a Cerveja Sovina ) pelo que antecipo ainda mais atrasos e complicações.
Como ainda estou à espera de que se concluam as actualizações do artigo do edifício na Câmara e nas Finanças para o pedido de crédito entrar na engrenagem bancária resolvi antecipar os problemas , fui hoje mostrar as instalações ao engenheiro da Câmara responsável e disse-lhe que íamos começar a analisar as necessidades como se fosse para uma queijaria , porque não há falta de experiência a licenciá-las e no máximo o que me podia acontecer era pecar por excesso.
A primeira observação arrefeceu-me logo o sangue: para uma queijaria artesanal daqui ( que processa 20litros de leite por dia) exigiram duas portas , uma para entrarem as matérias primas e outra para sair o produto. Existe risco ou inconveniência se se utilizar a mesma porta para entrar e sair , segundo os reguladores , o que é das coisas mais absurdas que tenho ouvido nos últimos meses , e eu até leio comunicados da CGTP.
Eu quero muito fazer tudo dentro da legalidade , desde as licenças até aos impostos e contribuições todas. Já estou a pagar à segurança social por estar a trabalhar para mim próprio quando estou a mais de 5 meses das primeiras vendas , para que se veja. Sei bem que não posso esperar que começar um negócio seja tão simples em Portugal como nos EUA ou noutros países que prezam empreendedores e crescimento económico sem ser apenas no papel e nos discursos , mas tenho os meus limites.
Se os atrasos , dificuldades , incongruências e pura estupidez como a história das duas portas prevalecerem não estou disposto a consumir-me ao sabor de um Estado que cada vez me desilude mais . Vim para aqui não só porque queria viver descansado no meu país mas porque acho que tenho alguma coisa para contribuir e nas alturas difíceis é que é preciso trabalhar com mais força, mas levantem-me muitos mais obstáculos idiotas e em menos tempo do que leva a contar as coisas mudam .
A legalidade é uma coisa muito relativa. Por exemplo há uns anos era legal ter outras pessoas como propriedade privada , há menos tempo era ilegal ter um isqueiro sem licença e já no meu tempo estava na Lei que todos os homens tinham que ir à tropa. O que é ilegal hoje amanhã pode ser legal , e vice versa , e quando conhecemos as criaturas que fazem as leis e o modo como elas são feitas perdemos depressa a noção da legalidade como valor absoluto.
Depois da garagem de um amigo , de um prédio velho para recuperar , de uma barraca na minha propriedade e de um módulo pré-fabricado , tenho um acordo de compra para esse edifício da foto . Mesmo que alguma das soluções anteriores se realizasse o objectivo a longo prazo era instalar-me num edifício com carácter , como este , que tem muitas vantagens. É sabido que a cerveja é muito diferente se sair de um módulo pré fabricado ou de uma oficina assim, mesmo que seja absolutamente idêntica , por isso fiquei muito contente , a localização é óptima , tem um certo carisma , é tradicional e o interior está renovado , impecável e giro .
Estou optimista que dos biliões que re-capitalizaram os bancos sobrem uns trocos para fazer um crédito à minha empresa para comprar aquilo mais uns equipamentos e umas obrazinhas , sei bem que não é um projecto daqueles bons , tipo uma produtora de eventos, uma loja de roupa ou uma agência de viagens , é uma simples mini fábrica de cerveja , talvez não entre nos critérios das empresas a conceder crédito , e eu não sou de nenhum partido nem conheço ninguém mas tenho sempre esperança , confio no meu projecto e além disso pago juros como os outros pelo que em princípio interesso aos bancos.
Muito mais que o financiamento preocupa-me o licenciamento.
Em Portugal já foi muito pior mas licenciar uma empresa ainda é um calvário , é daqueles custos em tempo e dinheiro que afugentam investidores , dificultam a vida aos empresários e são a razão de ser de um exército de funcionários públicos que muitas vezes não tem noção nenhuma do que está a licenciar . Falam muito da Empresa na Hora , que foi de facto um grande avanço mas costumam esquecer-se de que é diferente criar uma empresa e obter a licença para trabalhar. Se a empresa tem a infelicidade de querer produzir alguma coisa em vez de prestar serviços ou vender coisas feitas por outros , é um percurso tortuoso e frustrante . Os licenciamentos de micro cervejarias comerciais em Portugal são mais que raros ( há só uma , que eu saiba , na Maia , a produzir a Cerveja Sovina ) pelo que antecipo ainda mais atrasos e complicações.
Como ainda estou à espera de que se concluam as actualizações do artigo do edifício na Câmara e nas Finanças para o pedido de crédito entrar na engrenagem bancária resolvi antecipar os problemas , fui hoje mostrar as instalações ao engenheiro da Câmara responsável e disse-lhe que íamos começar a analisar as necessidades como se fosse para uma queijaria , porque não há falta de experiência a licenciá-las e no máximo o que me podia acontecer era pecar por excesso.
A primeira observação arrefeceu-me logo o sangue: para uma queijaria artesanal daqui ( que processa 20litros de leite por dia) exigiram duas portas , uma para entrarem as matérias primas e outra para sair o produto. Existe risco ou inconveniência se se utilizar a mesma porta para entrar e sair , segundo os reguladores , o que é das coisas mais absurdas que tenho ouvido nos últimos meses , e eu até leio comunicados da CGTP.
Eu quero muito fazer tudo dentro da legalidade , desde as licenças até aos impostos e contribuições todas. Já estou a pagar à segurança social por estar a trabalhar para mim próprio quando estou a mais de 5 meses das primeiras vendas , para que se veja. Sei bem que não posso esperar que começar um negócio seja tão simples em Portugal como nos EUA ou noutros países que prezam empreendedores e crescimento económico sem ser apenas no papel e nos discursos , mas tenho os meus limites.
Se os atrasos , dificuldades , incongruências e pura estupidez como a história das duas portas prevalecerem não estou disposto a consumir-me ao sabor de um Estado que cada vez me desilude mais . Vim para aqui não só porque queria viver descansado no meu país mas porque acho que tenho alguma coisa para contribuir e nas alturas difíceis é que é preciso trabalhar com mais força, mas levantem-me muitos mais obstáculos idiotas e em menos tempo do que leva a contar as coisas mudam .
A legalidade é uma coisa muito relativa. Por exemplo há uns anos era legal ter outras pessoas como propriedade privada , há menos tempo era ilegal ter um isqueiro sem licença e já no meu tempo estava na Lei que todos os homens tinham que ir à tropa. O que é ilegal hoje amanhã pode ser legal , e vice versa , e quando conhecemos as criaturas que fazem as leis e o modo como elas são feitas perdemos depressa a noção da legalidade como valor absoluto.
23.3.12
Electricidade

O projecto da minha casa tem tido alterações ao longo dos anos mas as características principais mantêm-se , entre elas ter uma uma instalação eléctrica autónoma , de 12 Volts , em vez de ligado à rede com 220V . Um sistema como se usa nos veleiros , um banco de baterias que se carrega com energia solar, eólica ou a velha e boa combustão interna por meio de um alternador. Usam-se inversores de corrente para usar aparelhos de maior potência e o sistema tem muitas vantagens , a mais óbvia é a independência da EDP , EDA ou de qualquer outro fornecedor de electricidade que no futuro possa andar aí.
As limitações , se não quisermos ou pudermos investir num sistema grande, são no uso de electrodomésticos e aparelhos de consumo elevado . Felizmente tenho acesso a electrodomésticos necessários como uma máquina de lavar roupa ou uma televisão quando preciso sem ter que os ter em casa e outras comodidades como uma varinha para passar a sopa ou um frigorífico podem perfeitamente trabalhar a 12V , tal como todas as luzes necessárias e aparelhos de música , computadores e agora não me ocorre mais nada que faça falta , funciona tudo bem a 12 V.
Outra desvantagem em relação à rede pública é que é necessária manutenção do sistema , não basta ligar à tomada e pagar ao fim do mês. As baterias , ligações e principalmente a "ventoínha" , requerem atenção e manutenção especialmente num sítio como este , onde não é raro soprarem rajadas de 90km/h , como ontem e anteontem ( ambos os meus barómetros caíram até bater no fundo , não estão bem calibrados mas uma queda assim é uma coisa tremenda de se ver) . Existe precisamente a questão da localização e da necessidade de compensar períodos de geração de energia com pausas, porque aqui apesar de não parecer há dias em que não mexe uma folha , e cada sítio tem que fazer estas contas.
Além do valor que não tem preço de estar independente da rede , e do valor que tem preço , para quem o quiser calcular , de não emitir poluentes , há que fazer a comparação dos preços reais , porque ninguém me vai oferecer o gerador e as baterias , eu não tenho Parceria nenhuma com o Público
Há uns meses a Câmara abriu uma vala de uns 30 metros da minha propriedade à estrada e ligou-me à rede pública de água . Aproveitei para enterrar um tubo largo de pvc com uma guia para que se no futuro eventualmente quisesse ligar-me à rede eléctrica evitava fios pelo ar e já estava o trabalho feito. Pedi um orçamento à EDA , estou muitíssimo curioso para conhecer os custos do contador , do projecto , do registo , e da própria instalação . Depois desses vem a factura mensal e uma relação com uma grande empresa , a burocracia gerada e o poder que lhes dou. A partir daí , seja por intempérie , seja por incompetência ou engano seja por minha falha em pagar a conta ,a EDA tem o poder de me cortar a electricidade , e outro que usa mais frequentemente , de cobrar mais do que a electricidade vale , como acontece em Portugal inteiro . Obriga-me a pagar mais impostos , porque da factura total 44% ( do Expresso) são "custos de política energética e de interesse económico geral". Não sou contra esse poder e esses custos , mas se puder não me sujeitar a ele nem os pagar , prefiro. Ainda não sei o custo todo do sistema eólico nem tenho uma estimativa decente da factura média da EDA , mas em breve já tenho os dados todos e posso decidir.
Estas contas e ponderações são interessantes de aplicar num caso práctico como o meu numa altura em que discutimos as rendas da EDP , a política energética nacional , as questões ambientais e as energias renováveis e aplicação e impacto real na vida das pessoas.
As limitações , se não quisermos ou pudermos investir num sistema grande, são no uso de electrodomésticos e aparelhos de consumo elevado . Felizmente tenho acesso a electrodomésticos necessários como uma máquina de lavar roupa ou uma televisão quando preciso sem ter que os ter em casa e outras comodidades como uma varinha para passar a sopa ou um frigorífico podem perfeitamente trabalhar a 12V , tal como todas as luzes necessárias e aparelhos de música , computadores e agora não me ocorre mais nada que faça falta , funciona tudo bem a 12 V.
Outra desvantagem em relação à rede pública é que é necessária manutenção do sistema , não basta ligar à tomada e pagar ao fim do mês. As baterias , ligações e principalmente a "ventoínha" , requerem atenção e manutenção especialmente num sítio como este , onde não é raro soprarem rajadas de 90km/h , como ontem e anteontem ( ambos os meus barómetros caíram até bater no fundo , não estão bem calibrados mas uma queda assim é uma coisa tremenda de se ver) . Existe precisamente a questão da localização e da necessidade de compensar períodos de geração de energia com pausas, porque aqui apesar de não parecer há dias em que não mexe uma folha , e cada sítio tem que fazer estas contas.
Além do valor que não tem preço de estar independente da rede , e do valor que tem preço , para quem o quiser calcular , de não emitir poluentes , há que fazer a comparação dos preços reais , porque ninguém me vai oferecer o gerador e as baterias , eu não tenho Parceria nenhuma com o Público
Há uns meses a Câmara abriu uma vala de uns 30 metros da minha propriedade à estrada e ligou-me à rede pública de água . Aproveitei para enterrar um tubo largo de pvc com uma guia para que se no futuro eventualmente quisesse ligar-me à rede eléctrica evitava fios pelo ar e já estava o trabalho feito. Pedi um orçamento à EDA , estou muitíssimo curioso para conhecer os custos do contador , do projecto , do registo , e da própria instalação . Depois desses vem a factura mensal e uma relação com uma grande empresa , a burocracia gerada e o poder que lhes dou. A partir daí , seja por intempérie , seja por incompetência ou engano seja por minha falha em pagar a conta ,a EDA tem o poder de me cortar a electricidade , e outro que usa mais frequentemente , de cobrar mais do que a electricidade vale , como acontece em Portugal inteiro . Obriga-me a pagar mais impostos , porque da factura total 44% ( do Expresso) são "custos de política energética e de interesse económico geral". Não sou contra esse poder e esses custos , mas se puder não me sujeitar a ele nem os pagar , prefiro. Ainda não sei o custo todo do sistema eólico nem tenho uma estimativa decente da factura média da EDA , mas em breve já tenho os dados todos e posso decidir.
Estas contas e ponderações são interessantes de aplicar num caso práctico como o meu numa altura em que discutimos as rendas da EDP , a política energética nacional , as questões ambientais e as energias renováveis e aplicação e impacto real na vida das pessoas.
21.3.12
Permacultura
Há uns 6 anos o movimento da Permacultura apareceu-me no caminho , nos Estados Unidos. O conceito foi criado na Austrália há uns 30 anos , trata-se de desenvolver comunidades e agricultura sustentáveis , modelando-as em ecossistemas naturais , um conceito lógico , aplicável, sensato , comprovado. Chegou cá há pouco , porque não há internet que valha o nosso atraso estrutural , ganhou logo seguidores e , mais importante , apóstolos .
Eu acho excelente que cada vez mais pessoas se dediquem a simplificar a sua vida , a cultivar os próprios alimentos , a procurar a auto suficiência , localismo e cooperação , a dinamizar a vida comunitária , a aplicar tecnologias limpas e por aí além. Eu faço o mesmo , à minha medida , e se não tenho vontade nenhuma de viver em “comunidade” tal como muitos dos Permacultores fazem ou sonham fazer , sei bem que a chave do sucesso e da felicidade está nas relações com quem vive directamente à nossa volta , os nossos vizinhos , além da nossa relação com o Meio Ambiente .
Ao fim de uns meses a acompanhar o fórum e o site da Permacultura em Portugal percebi que aquilo está cheio de fanáticos que só por professarem um modo de vida original e ecológico acham que isso lhes dá superioridade moral , podem pregar as suas verdades do alto do caixotezinho e chamar ao resto parvos e ignorantes , destruidores , inconscientes , vendidos. Metade deles vive num mundo de fantasia e se lhes desligassem o computador acabava a Permacultura. Só consomem a própria doutrina e não gostam do contraditório. “Estás no fórum errado” , por exemplo, dando-me a entender que para eles um Fórum é um sítio onde vamos “discutir” , mas só com quem pensa como nós. A Permacultura centra-se na produção alimentar directa e sustentada e num modo de vida de baixo consumo . Este objectivo tão nobre , vasto e difícil não chega para os apóstolos e fiéis , há que apontar inimigos e escoriar tudo o que não gostam : as multinacionais em geral ; a Ciência e Tecnologia modernas ; a Finança ; o petróleo , os OGM's , os políticos de direita ou com um projecto de desenvolvimento , o próprio desenvolvimento , os Americanos , os Chineses , a Comunicação Social . Ou seja , aquilo já me parece mais um movimento político do que uma sociedade de agricultores inovadores .
Quando aderi ao site recebi no facebook um pedido de amizade de um dos dinamizadores , e apesar de ser contra a regra de não ser "amigo" de ninguém que não conheça pessoalmente lá aceitei. O senhor publica regularmente uma torrente de informação , muita dela relevante ao conceito de Permacultura ,outra de cariz político e ideológico , e como é normal nestas coisas aquilo funciona como uma câmara de ressonância : põe-se um vídeo sobre o Occupy Wall Street (que tem uma importância extrema para a agricultura sustentável e teve o destino previsível) e o pessoal gosta a aplaude , porque são todos amigos e gostam todos das mesmas coisas . Ontem pôs uma notícia a dizer que os Alemães são contra os organismos geneticamente manipulados . 10 pessoas gostaram imediatamente , ainda bem que estamos tão atentos à imprensa e sociedade alemãs , e eu perguntei o que é que achavam do preço da carne subir 20% quando se proibisse o milho transgénico omnipresente nas rações , por exemplo nas que eu dou às minhas ovelhas. Isto é o género de pergunta de que os militantes não gostam , porque força-os a confrontar-se com os inconvenientes e impracticabilidades das suas soluções para salvar o Mundo , e é uma das coisas que me enerva , o facto deste pessoal não se contentar com ter encontrado a sua verdade e a sua solução e viver em consonância mas sentir-se obrigado a impingi-la ao Mundo em geral. A minha opinião sobre os transgénicos e OGM's está aqui. , é sem dúvida criticável mas pelo menos acho que é clara e sustentada.
Então no decorrer dessa discussão o apóstolo mor , depois me ter chamado absolutamente ignorante lança uma daquelas frases de efeito : “Quem são os Humanos para modificar aquilo que levou milhares de anos a evoluir e adaptar-se ?” ao que eu respondi que a Medicina moderna não é mais do que modificar aquilo que levou milhares de anos a evoluir e adaptar-se, e não vejo muita gente a protestar contra ela. Também referi que há cento e tal anos se dizia que o uso dos tractores ia destruir o sabor e qualidade dos alimentos , o homem responde-me que está provado que os tractores destroem os solos a longo prazo, eu disse que sim , mas então como é que se faz? Cada pessoa vai cavar a sua própria horta à mão? Ficou mais ou menos por aqui.
Há gente que gostaria de viver no século XVIII , com o seu ambiente puro , rios cristalinos , comunidades pequenas , vida selvagem abundante ,danças das colheitas e tal , enfim , aquele mito da pureza que devemos ao traste do Rousseau e que nunca teve correspondência nenhuma com a realidade. A vida no "Estado Natural" em que esse pessoal pensa que gostava de viver era , como dizia o Hobbes , pobre , sórdida , bruta e curta .
Guerra , corrupção , pobreza e desigualdades existem em todo o lado desde que os homens se organizam em sociedade e mais depressa vamos banir a gravidade ou os furacões do que essas coisas. Poluição , destruição ambiental , esgotamento de recursos , multinacionais , bancos e políticos , entre outros castigos , são o preço que pagamos pelo nível de vida que temos .
Há quem queira medicamentos eficazes para tudo mas à borla e sem testes em animais ; quem queira um empréstimo para comprar casa mas sem Finança internacional ; quem queira andar de automóvel mas odeie a dependência do petróleo ; quem ralhe contra a exploração dos Chineses ( ou Portugueses) mas queira produtos de consumo baratos , quem faça da Internet o seu mundo , sociedade , ferramenta e fonte de informação ao mesmo tempo que luta contra tudo o que tornou a Internet possível e a mantém a funcionar , no fundo , quem preza e usa os confortos e oportunidades da vida moderna mas está contra o preço a pagar.
Depois há quem recuse tudo isto mas não se fique por aí , lutando para que todos façam o mesmo. Não há paciência.
Ao fim de uns meses a acompanhar o fórum e o site da Permacultura em Portugal percebi que aquilo está cheio de fanáticos que só por professarem um modo de vida original e ecológico acham que isso lhes dá superioridade moral , podem pregar as suas verdades do alto do caixotezinho e chamar ao resto parvos e ignorantes , destruidores , inconscientes , vendidos. Metade deles vive num mundo de fantasia e se lhes desligassem o computador acabava a Permacultura. Só consomem a própria doutrina e não gostam do contraditório. “Estás no fórum errado” , por exemplo, dando-me a entender que para eles um Fórum é um sítio onde vamos “discutir” , mas só com quem pensa como nós. A Permacultura centra-se na produção alimentar directa e sustentada e num modo de vida de baixo consumo . Este objectivo tão nobre , vasto e difícil não chega para os apóstolos e fiéis , há que apontar inimigos e escoriar tudo o que não gostam : as multinacionais em geral ; a Ciência e Tecnologia modernas ; a Finança ; o petróleo , os OGM's , os políticos de direita ou com um projecto de desenvolvimento , o próprio desenvolvimento , os Americanos , os Chineses , a Comunicação Social . Ou seja , aquilo já me parece mais um movimento político do que uma sociedade de agricultores inovadores .
Quando aderi ao site recebi no facebook um pedido de amizade de um dos dinamizadores , e apesar de ser contra a regra de não ser "amigo" de ninguém que não conheça pessoalmente lá aceitei. O senhor publica regularmente uma torrente de informação , muita dela relevante ao conceito de Permacultura ,outra de cariz político e ideológico , e como é normal nestas coisas aquilo funciona como uma câmara de ressonância : põe-se um vídeo sobre o Occupy Wall Street (que tem uma importância extrema para a agricultura sustentável e teve o destino previsível) e o pessoal gosta a aplaude , porque são todos amigos e gostam todos das mesmas coisas . Ontem pôs uma notícia a dizer que os Alemães são contra os organismos geneticamente manipulados . 10 pessoas gostaram imediatamente , ainda bem que estamos tão atentos à imprensa e sociedade alemãs , e eu perguntei o que é que achavam do preço da carne subir 20% quando se proibisse o milho transgénico omnipresente nas rações , por exemplo nas que eu dou às minhas ovelhas. Isto é o género de pergunta de que os militantes não gostam , porque força-os a confrontar-se com os inconvenientes e impracticabilidades das suas soluções para salvar o Mundo , e é uma das coisas que me enerva , o facto deste pessoal não se contentar com ter encontrado a sua verdade e a sua solução e viver em consonância mas sentir-se obrigado a impingi-la ao Mundo em geral. A minha opinião sobre os transgénicos e OGM's está aqui. , é sem dúvida criticável mas pelo menos acho que é clara e sustentada.
Então no decorrer dessa discussão o apóstolo mor , depois me ter chamado absolutamente ignorante lança uma daquelas frases de efeito : “Quem são os Humanos para modificar aquilo que levou milhares de anos a evoluir e adaptar-se ?” ao que eu respondi que a Medicina moderna não é mais do que modificar aquilo que levou milhares de anos a evoluir e adaptar-se, e não vejo muita gente a protestar contra ela. Também referi que há cento e tal anos se dizia que o uso dos tractores ia destruir o sabor e qualidade dos alimentos , o homem responde-me que está provado que os tractores destroem os solos a longo prazo, eu disse que sim , mas então como é que se faz? Cada pessoa vai cavar a sua própria horta à mão? Ficou mais ou menos por aqui.
Há gente que gostaria de viver no século XVIII , com o seu ambiente puro , rios cristalinos , comunidades pequenas , vida selvagem abundante ,danças das colheitas e tal , enfim , aquele mito da pureza que devemos ao traste do Rousseau e que nunca teve correspondência nenhuma com a realidade. A vida no "Estado Natural" em que esse pessoal pensa que gostava de viver era , como dizia o Hobbes , pobre , sórdida , bruta e curta .
Guerra , corrupção , pobreza e desigualdades existem em todo o lado desde que os homens se organizam em sociedade e mais depressa vamos banir a gravidade ou os furacões do que essas coisas. Poluição , destruição ambiental , esgotamento de recursos , multinacionais , bancos e políticos , entre outros castigos , são o preço que pagamos pelo nível de vida que temos .
Há quem queira medicamentos eficazes para tudo mas à borla e sem testes em animais ; quem queira um empréstimo para comprar casa mas sem Finança internacional ; quem queira andar de automóvel mas odeie a dependência do petróleo ; quem ralhe contra a exploração dos Chineses ( ou Portugueses) mas queira produtos de consumo baratos , quem faça da Internet o seu mundo , sociedade , ferramenta e fonte de informação ao mesmo tempo que luta contra tudo o que tornou a Internet possível e a mantém a funcionar , no fundo , quem preza e usa os confortos e oportunidades da vida moderna mas está contra o preço a pagar.
Depois há quem recuse tudo isto mas não se fique por aí , lutando para que todos façam o mesmo. Não há paciência.
19.3.12
Parque Escolar
Esta aberração luta com as PPP's pela distinção de programa mais emblemático do último governo. Vão-se revelando os pormenores e contas desta empresa , como os 90% de aumento com custos de pessoal no último ano , os ajustes directos , as obras luxuosas como a da António Arroio , os equipamentos caríssimos. Se uma empresa de compras do estado equipa escolas com computadores a 800€ quando qualquer pessoa entra numa loja e compra um por 400, estamos conversados sobre esta gente. Já se demitiram , muito escandalizados pela revelação pública da própria incompetência , despesismo e corrupção , o que para nós é fraco consolo , os milhões estão derretidos e o retorno é incerto .
A minha geração andou em escolas sem computadores , sem gimnodesportivos , sem cacifos , sem chãos de mármore e sem outras amenidades que o PS achou cruciais ao desenvolvimento académico dos alunos. O PS ainda hoje defende a Parque Escolar e o dr. Zorrinho diz que “tudo o que fizemos tinha justificação” , argumento já ouvido noutros meios mais ou menos dramáticos desde estádios de futebol ao Tribunal de Nuremberga. Tinha justificação , o que é diferente de essa ser aceitável ou válida.
Crescemos e aprendemos em escolas muito diferentes das de hoje , mas no entanto todos os que quisemos e fomos motivados , em casa e na escola , aprendemos o que precisávamos para a vida que levamos hoje. Não há prémios Nobel nem gestores de topo saídos da minha escola mas há dezenas de milhar de pessoas normais , cidadãos produtivos , qualificados e instruídos ,uns melhor outros pior , à medida do nosso país. Se um telhado mete água , se não há aquecimento , se não há cantina , é claro que o desempenho dos alunos se ressente. Passar daqui para a necessidade geral de renovar todas as escolas , muito vezes demolindo estruturas em bom estado , e só comprar do mais caro é do mais imbecil que já vi , é de novo rico deslumbrado que não faz ideia não só de onde vem o dinheiro como da relação real entre ambiente e desempenho. O PS acreditava (se calhar ainda acredita mas ninguém lhes pergunta) que escolas de luxo iam produzir alunos de luxo. Por mais contas que se façam sobre o aumento de produtividade de um aluno por estudar numa escola de luxo e se pudesse quantificar o investimento , duvido que fôssemos obter retornos correspondente aos gastos .
Havia muitas outras medidas que justificavam muito mais o investimento , como por exemplo proporcionar pequenos almoços nas cantinas , e se havia obras a fazer , que cada escola dissesse o que lhe fazia falta , em vez de virem os patos bravos de Lisboa dizer que aqui vai haver rampas de acesso , para ali vão 10 plasmas , 30 jardins novos , gimnodesportivos a granel e por aí além. Todos estes palhaços acham fundamental uma secundária ter um gimnodesportivo equipadíssimo , mas não lhes faz impressão que não haja estruturas para se fazerem Campeonatos Escolares regulares . O que lhes interessa é a infraestura , não é o que vai sair dela.
Se essa gente estivesse interessada na qualidade do Ensino e não em gerar negócios e exibir-se tinha pedido a cada escola que dissesse o que é que lhe fazia falta , e dava uma verba e autonomia à escola para a usar nas instalações. Isso tinha renovado o parque com muito menos dinheiro , primeiro porque se as escolas têm X para gastar e sabem bem do que precisam mesmo não vão andar a comprar computadores por 800€ nem a contratar meia dúzia de assessores e adjuntos novos. As escolas tinham contratado os empreiteiros locais à medida das necessidades em vez de 3 tubarões amigalhaços que ganham os “concursos” todos e depois vão empregar esses mesmos empreiteiros locais , pagando-lhes muito menos. Depois porque se tinha evitado a criação de mais uma empresa pública , que foi fiel ao modelo : trabalhou mal , desperdiçou oportunidades e recursos e deu prejuízo .
Fez-me lembrar um caso que tem semelhanças com este , no que diz respeito às construções de “luxo” : Existe uma associação chamada Raríssimas , dedicada a ajudar as crianças com doenças , precisamente, raríssimas . Piores que as doenças comuns quanto mais não seja porque são menos estudadas e compreendidas e as drogas para as tratar são naturalmente mais caras . A mãe de uma destas crianças , que morreu , criou essa associação e faz dela a sua luta , passando por conseguir uma casa para acolher , acompanhar e tratar as crianças raríssimas , e nasceu o projecto da "Casa dos Marcos" ( Marco era o nome do filho da senhora).
Ninguém pode ter nada contra este projecto , e até acho que deve receber apoio do Estado. Vi no outro dia uma entrevista da senhora a explicar que as obras estão paradas por falta de verba. Depois vi planos da casa e fotos das obras, só o terreno teve o valor de 2,5 milhões de euros e foi cedido pela câmara municipal, e o que eu pergunto é isto: Se se tivesse sido um bocadinho menos ambicioso , um tudo nada mais modesto , dado um pouco mais de atenção à relação meios/fins , não se poderia já ter a abençoada casinha a funcionar , alojando dignamente as crianças ? Era mesmo preciso aquilo tudo?A minha geração andou em escolas sem computadores , sem gimnodesportivos , sem cacifos , sem chãos de mármore e sem outras amenidades que o PS achou cruciais ao desenvolvimento académico dos alunos. O PS ainda hoje defende a Parque Escolar e o dr. Zorrinho diz que “tudo o que fizemos tinha justificação” , argumento já ouvido noutros meios mais ou menos dramáticos desde estádios de futebol ao Tribunal de Nuremberga. Tinha justificação , o que é diferente de essa ser aceitável ou válida.
Crescemos e aprendemos em escolas muito diferentes das de hoje , mas no entanto todos os que quisemos e fomos motivados , em casa e na escola , aprendemos o que precisávamos para a vida que levamos hoje. Não há prémios Nobel nem gestores de topo saídos da minha escola mas há dezenas de milhar de pessoas normais , cidadãos produtivos , qualificados e instruídos ,uns melhor outros pior , à medida do nosso país. Se um telhado mete água , se não há aquecimento , se não há cantina , é claro que o desempenho dos alunos se ressente. Passar daqui para a necessidade geral de renovar todas as escolas , muito vezes demolindo estruturas em bom estado , e só comprar do mais caro é do mais imbecil que já vi , é de novo rico deslumbrado que não faz ideia não só de onde vem o dinheiro como da relação real entre ambiente e desempenho. O PS acreditava (se calhar ainda acredita mas ninguém lhes pergunta) que escolas de luxo iam produzir alunos de luxo. Por mais contas que se façam sobre o aumento de produtividade de um aluno por estudar numa escola de luxo e se pudesse quantificar o investimento , duvido que fôssemos obter retornos correspondente aos gastos .
Havia muitas outras medidas que justificavam muito mais o investimento , como por exemplo proporcionar pequenos almoços nas cantinas , e se havia obras a fazer , que cada escola dissesse o que lhe fazia falta , em vez de virem os patos bravos de Lisboa dizer que aqui vai haver rampas de acesso , para ali vão 10 plasmas , 30 jardins novos , gimnodesportivos a granel e por aí além. Todos estes palhaços acham fundamental uma secundária ter um gimnodesportivo equipadíssimo , mas não lhes faz impressão que não haja estruturas para se fazerem Campeonatos Escolares regulares . O que lhes interessa é a infraestura , não é o que vai sair dela.
Se essa gente estivesse interessada na qualidade do Ensino e não em gerar negócios e exibir-se tinha pedido a cada escola que dissesse o que é que lhe fazia falta , e dava uma verba e autonomia à escola para a usar nas instalações. Isso tinha renovado o parque com muito menos dinheiro , primeiro porque se as escolas têm X para gastar e sabem bem do que precisam mesmo não vão andar a comprar computadores por 800€ nem a contratar meia dúzia de assessores e adjuntos novos. As escolas tinham contratado os empreiteiros locais à medida das necessidades em vez de 3 tubarões amigalhaços que ganham os “concursos” todos e depois vão empregar esses mesmos empreiteiros locais , pagando-lhes muito menos. Depois porque se tinha evitado a criação de mais uma empresa pública , que foi fiel ao modelo : trabalhou mal , desperdiçou oportunidades e recursos e deu prejuízo .
Fez-me lembrar um caso que tem semelhanças com este , no que diz respeito às construções de “luxo” : Existe uma associação chamada Raríssimas , dedicada a ajudar as crianças com doenças , precisamente, raríssimas . Piores que as doenças comuns quanto mais não seja porque são menos estudadas e compreendidas e as drogas para as tratar são naturalmente mais caras . A mãe de uma destas crianças , que morreu , criou essa associação e faz dela a sua luta , passando por conseguir uma casa para acolher , acompanhar e tratar as crianças raríssimas , e nasceu o projecto da "Casa dos Marcos" ( Marco era o nome do filho da senhora).
Tal como não acho que as crianças possam estudar decentemente num pré fabricado que mete água também não acho que se devessem pôr as crianças da Raríssimas onde coubessem , mas às vezes parece que as pessoas perdem a noção .
13.3.12
Banda aqui , só filarmónica
Vai para quase um ano em que o acesso a internet é na biblioteca ou dentro do carro num hotspot wifi , o que tem muitos inconvenientes . Ainda no outro dia vi um anuncio da PT , muito bonito , a anunciar a chegada do 4G , há-de ser uma alegria para muita gente , eu já me dava por satisfeito com internet sem ser a que temos , somos o único sítio do país , com o Corvo , onde não há banda nem estreita nem larga , há uma ligação satélite que exige muita paciência e há uma promessa vetusta de ligação do cabo de fibra óptica , será lá para as calendas gregas quando chegar a retoma económica. A velocidade chega a descer 4kb/s , o que é confrangedor , mas mau mesmo era não haver internet.
Decidi investir numa daquelas pens para ter internet senão rápida (pagamos o mesmo preço que os continentais por um serviço muito inferior) pelo menos em casa e portátil e fui à PT. A menina da loja da PT deu-me um número de telefone e disse para ligar eu , porque não têm em stock e se eles pedirem internamente vem de barco. Liguei para lá e o rapaz disse-me , no dia 5 , que dia 8 tinha cá o equipamento . “Viu bem aí o código postal?” , perguntei eu. " Sim sim , não há problema , se não for dia 8 é dia 9 e telefonam-lhe a avisar da alteração" . Chegou dia 12 , e a instalação automática não funcionava. Por uma coincidência os únicos controladores que não estão disponíveis no site da PT são os da pen que eu comprei. O rapaz do apoio ao cliente disse-me que o que tinha a fazer era ir à loja entregar o equipamento e davam-me outro, tive que me rir , porque podia ser assim mas demorava 15 dias , pelo que agora vou ligar para outro departamento , enviar este equipamento e esperar por um novo, mas entretanto já paguei , claro. Mesmo assim até ver pago e suporto bem estes custos todos da insularidade , porque quase a fazer um ano de ilhéu vejo muito mais vantagens que custos em viver aqui.
Decidi investir numa daquelas pens para ter internet senão rápida (pagamos o mesmo preço que os continentais por um serviço muito inferior) pelo menos em casa e portátil e fui à PT. A menina da loja da PT deu-me um número de telefone e disse para ligar eu , porque não têm em stock e se eles pedirem internamente vem de barco. Liguei para lá e o rapaz disse-me , no dia 5 , que dia 8 tinha cá o equipamento . “Viu bem aí o código postal?” , perguntei eu. " Sim sim , não há problema , se não for dia 8 é dia 9 e telefonam-lhe a avisar da alteração" . Chegou dia 12 , e a instalação automática não funcionava. Por uma coincidência os únicos controladores que não estão disponíveis no site da PT são os da pen que eu comprei. O rapaz do apoio ao cliente disse-me que o que tinha a fazer era ir à loja entregar o equipamento e davam-me outro, tive que me rir , porque podia ser assim mas demorava 15 dias , pelo que agora vou ligar para outro departamento , enviar este equipamento e esperar por um novo, mas entretanto já paguei , claro. Mesmo assim até ver pago e suporto bem estes custos todos da insularidade , porque quase a fazer um ano de ilhéu vejo muito mais vantagens que custos em viver aqui.
10.3.12
Relvas , burras & ovelhas
É assunto que me ocupa e sobre o qual falo todos os dias , com amigos , com conhecidos e com vizinhos . Uma relva aqui é um terreno que tenha pasto , desde meio até três ou quatro alqueires , que são mais ou menos 1000 m2 , até onde eu percebo. Procuro uma relva , o valor médio são 1000€ por alqueire , mas o valor nem sempre corresponde ao preço, e está dependente de muitas variáveis desde o acesso à vedação e à exposição .
Lá fui buscá-las pelas canadas à terra de outro vizinho , depois fui directamente comprar 50 metros de rede e fechei finalmente a cerca. Não só durmo mais descansado mesmo nas noites de temporal pior como agora consigo-as convencer muito melhor de que a silagem é nutritiva e deliciosa.
Nunca mais pára de chover , o que se por um lado me lembra de outra das minhas razões principais para vir para aqui ( nunca vai faltar água pelo menos no meu tempo de vida , venha o que vier) por outro lembra-me da desgraça que está em curso no continente. Conservar água é um hábito que se adquire mas não é de repente nem se vai lá com campanhas , e nas cidades arrisco que 95% das pessoas toma abrir uma torneira e sair água como uma coisa garantida, o que é mau. O preço da água já devia ter subido há muitos anos , e muito , essa sim é a maneira de regular o consumo de um bem que é escasso , se bem que pouca gente percebe isso até lhe faltar , mas aqui d'el Rei que os neo liberais querem cobrar por tudo. Mais uma vez , boa sorte .
Por causa das dificuldades , incerteza e pessimismo instalou-se a convicção de que se vai voltar aos tempos da pura subsistência , que o valor dos terrenos agrícolas vai subir depois de décadas em que pegar num sacho era uma vergonha. Ninguém na televisão sacha batatas nem poda árvores nem cria galinhas , pelo que não é uma aspiração decente.
Aqui muita gente pensa , talvez com razão , que mesmo que agora não trabalhe na terra um dia aquele alqueirezinho ainda lhe vai dar jeito , e não vende. Depois há as terras de proprietários ausentes , desconhecidos ou desaparecidos , arrendamentos arcaicos , junta-se a questão dos subsídios , enfim , o mercado das relvas está apertado.
Recebi um telefonema do lavrador que me vendeu as ovelhas , tinha um negócio para mim , fiquei logo entusiasmado mas não era nenhuma relva , “relvas tá muito complicado” , o que ele tinha para me vender era uma burrinha. Nesta altura não estou interessado , a burra é ideal para ir às fajãs , onde há muitas terras de cultivo mas tirando uma a que se chega de moto 4 , só lá se chega a pé , e há coisas para levar e trazer , especialmente se as terras estivessem todas a produzir a fundo , como noutros tempos. Como ainda não tenho terras numa fajã não tenho utilidade nenhuma para uma burra agora , antes pelo contrário, vejo-negro para alimentar as ovelhas , chega de alimárias por agora .
Acabou ontem a provação das fugas constantes e da guerra com as cercas . Por causa da lama na terra que estava melhor vedada passaram para a de cima , onde já havia uma ervazinha , regalaram-se ali uma semana e deixaram de gostar da silagem. Depois havia mais erva fresca e alta à vista , nas terras dos vizinhos , a cerca eléctrica não era suficiente para as desmotivar e o arame farpado tinha que ser muito mais tenso e com o dobro das fiadas para funcionar . Nunca tinha a certeza de que as ovelhas estavam lá quando chegava de manhã, mas pelo menos já não tinha que andar à procura , só podiam ir para três sítios . Estava sempre à espera que me viessem avisar que tinham visto as minhas ovelhas lá para cima , cheguei a ir a casa do vizinho dizer-lhe que elas tinham ido para a relva dele , várias vezes, e se ele quisesse podia levar uma vaca para lá e eu dava-lhe um rolo de silagem. Disse-me “veio-me dizer e já as tapou, não quero mais nada”. Tapei , fui tapando , mas elas iam destapando e ontem de manhã quando lá cheguei só lá estava a mãe da cordeirinha , que estava numa estaca fora da cerca
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Aqui muita gente pensa , talvez com razão , que mesmo que agora não trabalhe na terra um dia aquele alqueirezinho ainda lhe vai dar jeito , e não vende. Depois há as terras de proprietários ausentes , desconhecidos ou desaparecidos , arrendamentos arcaicos , junta-se a questão dos subsídios , enfim , o mercado das relvas está apertado.
Recebi um telefonema do lavrador que me vendeu as ovelhas , tinha um negócio para mim , fiquei logo entusiasmado mas não era nenhuma relva , “relvas tá muito complicado” , o que ele tinha para me vender era uma burrinha. Nesta altura não estou interessado , a burra é ideal para ir às fajãs , onde há muitas terras de cultivo mas tirando uma a que se chega de moto 4 , só lá se chega a pé , e há coisas para levar e trazer , especialmente se as terras estivessem todas a produzir a fundo , como noutros tempos. Como ainda não tenho terras numa fajã não tenho utilidade nenhuma para uma burra agora , antes pelo contrário, vejo-negro para alimentar as ovelhas , chega de alimárias por agora .
Acabou ontem a provação das fugas constantes e da guerra com as cercas . Por causa da lama na terra que estava melhor vedada passaram para a de cima , onde já havia uma ervazinha , regalaram-se ali uma semana e deixaram de gostar da silagem. Depois havia mais erva fresca e alta à vista , nas terras dos vizinhos , a cerca eléctrica não era suficiente para as desmotivar e o arame farpado tinha que ser muito mais tenso e com o dobro das fiadas para funcionar . Nunca tinha a certeza de que as ovelhas estavam lá quando chegava de manhã, mas pelo menos já não tinha que andar à procura , só podiam ir para três sítios . Estava sempre à espera que me viessem avisar que tinham visto as minhas ovelhas lá para cima , cheguei a ir a casa do vizinho dizer-lhe que elas tinham ido para a relva dele , várias vezes, e se ele quisesse podia levar uma vaca para lá e eu dava-lhe um rolo de silagem. Disse-me “veio-me dizer e já as tapou, não quero mais nada”. Tapei , fui tapando , mas elas iam destapando e ontem de manhã quando lá cheguei só lá estava a mãe da cordeirinha , que estava numa estaca fora da cerca
Lá fui buscá-las pelas canadas à terra de outro vizinho , depois fui directamente comprar 50 metros de rede e fechei finalmente a cerca. Não só durmo mais descansado mesmo nas noites de temporal pior como agora consigo-as convencer muito melhor de que a silagem é nutritiva e deliciosa.
Nunca mais pára de chover , o que se por um lado me lembra de outra das minhas razões principais para vir para aqui ( nunca vai faltar água pelo menos no meu tempo de vida , venha o que vier) por outro lembra-me da desgraça que está em curso no continente. Conservar água é um hábito que se adquire mas não é de repente nem se vai lá com campanhas , e nas cidades arrisco que 95% das pessoas toma abrir uma torneira e sair água como uma coisa garantida, o que é mau. O preço da água já devia ter subido há muitos anos , e muito , essa sim é a maneira de regular o consumo de um bem que é escasso , se bem que pouca gente percebe isso até lhe faltar , mas aqui d'el Rei que os neo liberais querem cobrar por tudo. Mais uma vez , boa sorte .
No mundo irreal , e sobre um post que escrevi há pouco enervado com o tratamento dado ao ministro da economia pelo Miguel Sousa Tavares no Expresso: não fui criticado por esse texto nem corrigido , fui insultado e entre outras coisas recomendavam-me que arranjasse um cão e uma namorada , parece que as pessoas com cães e namoradas são menos acerbas , é provável. O que não pude deixar de reparar foi que o Miguel Sousa Tavares , que odeia blogues , parece acreditar que blogue é igual a opinião anónima , e isso é falso e muito mau. Há uma diferença grande entre ser desconhecido e irrelevante e ser anónimo , e se bem que muitos blogues aproveitam o anonimato para dizer o que não diriam assumidamente , muitos outros como este vosso criado assinam e até põem umas fotografiazinhas , o email está aí , qualquer pessoa pode comentar aí o que quiser e dou as satisfações que forem precisas sobre o que escrevo. Nem todos temos o privilégio de uma coluna num jornal ou comentário na televisão , mas todos temos opiniões e a liberdade de as publicar , se bem que essa concorrência e crítica , mesmo que insignificante em forma, alcance e conteúdo , por vezes não agrade . É a vida.
7.3.12
Adopção Gay
Soube ao retardador que a possibilidade de adopção por casais gay tinha sido proposta pelo Bloco de Esquerda e chumbada na Assembleia. Um dos legisladores que votou contra , Telmo Correia do CDS , justificou a sua posição dizendo que "é contra a vontade do Criador". Nem vou falar do que é um político com responsabilidades justificar seja o que for com a existência , quanto mais a vontade , de um criador . Se o Telmo Correia conhece assim tão bem a vontade do criador devia dedicar-se a zelar para que ela fosse sempre observada na sua casa em vez de querer impôr a sua noção de vontade do criador a toda a gente , independentemente de acreditarem ou não num Criador e nas interpretações da sua vontade.O Estado é laico , ele como deputado faz parte de um órgão do Estado , logo, deve ser laico no desempenho das suas funções mas parece que ninguém lhe explicou isto.
Eu tenho sérias dúvidas quanto à existência de um Criador tal como o Telmo Correia o imagina , mas mesmo aceitando a existência de um Deus à medida dos Católicos não sei onde é que está escrito , mesmo aceitando que a Sua vontade é revelada assim , por assuntos e alíneas a uns quantos escolhidos , que um órfão não deve poder ser adoptado por dois homens ou duas mulheres. Gostava de saber em que parte do Antigo Testamento é que isto vem , que parte do Novo é que fala contra isso.
Gostava ainda de perguntar aos oponentes da adopção por casais gay qual é a parte que os ofende mais , se é a possibilidade de uma criança sem pai nem mãe poder ter uma casa com pessoas que gostam dela e querem cuidá-la ou se é a parte em que duas pessoas que gostam uma da outra e querem ter uma família ficarem mais realizadas e felizes. Parece que há muita gente para a qual é preferível que os órfãos passem a vida toda em instituições do que correrem o risco horrível de ser amados e cuidados por duas pessoas do mesmo sexo.
Toda a gente sabe , está provado , que é mau para uma criança ter pais alcoólicos , ausentes , violentos , negligentes ou promíscuos mas ninguém nunca mostrou com certeza nenhuma que espécie de mal afinal vem a uma criança que tem duas mães ou dois pais , que eu acho preferível a não ter nenhum.
Aqui há anos agonizava-se por causa do estigma dos filhos de pais divorciados , era uma das razões para proibir o divórcio. Evidentemente foi uma luta que valeu muito a pena , fazia muito sentido obrigar duas pessoas que mal se podiam ver a viver juntas , era preferível as crianças viverem numa casa sem concórdia nem amor mas com os dois paizinhos lá.
Havemos de evoluir , daqui a uma década ou duas alguém vai olhar para trás e pensar nas centenas de órfãos que podiam ter tido uma família se não fossem estas pessoas tão atrasadinhas.
Eu tenho sérias dúvidas quanto à existência de um Criador tal como o Telmo Correia o imagina , mas mesmo aceitando a existência de um Deus à medida dos Católicos não sei onde é que está escrito , mesmo aceitando que a Sua vontade é revelada assim , por assuntos e alíneas a uns quantos escolhidos , que um órfão não deve poder ser adoptado por dois homens ou duas mulheres. Gostava de saber em que parte do Antigo Testamento é que isto vem , que parte do Novo é que fala contra isso.
Gostava ainda de perguntar aos oponentes da adopção por casais gay qual é a parte que os ofende mais , se é a possibilidade de uma criança sem pai nem mãe poder ter uma casa com pessoas que gostam dela e querem cuidá-la ou se é a parte em que duas pessoas que gostam uma da outra e querem ter uma família ficarem mais realizadas e felizes. Parece que há muita gente para a qual é preferível que os órfãos passem a vida toda em instituições do que correrem o risco horrível de ser amados e cuidados por duas pessoas do mesmo sexo.
Toda a gente sabe , está provado , que é mau para uma criança ter pais alcoólicos , ausentes , violentos , negligentes ou promíscuos mas ninguém nunca mostrou com certeza nenhuma que espécie de mal afinal vem a uma criança que tem duas mães ou dois pais , que eu acho preferível a não ter nenhum.
Aqui há anos agonizava-se por causa do estigma dos filhos de pais divorciados , era uma das razões para proibir o divórcio. Evidentemente foi uma luta que valeu muito a pena , fazia muito sentido obrigar duas pessoas que mal se podiam ver a viver juntas , era preferível as crianças viverem numa casa sem concórdia nem amor mas com os dois paizinhos lá.
Havemos de evoluir , daqui a uma década ou duas alguém vai olhar para trás e pensar nas centenas de órfãos que podiam ter tido uma família se não fossem estas pessoas tão atrasadinhas.
6.3.12
Comida de Cão
Qualquer "especialista" diz que os restos de comida humana não são um bom alimento para cães , há rações de substituição de toda a ordem , que sendo produzidas “cientificamente” e industrialmente são uma alimentação completa para os bichos , além de mais práctica e conveniente . O marketing e as modas levaram a indústria da ração para animais a coisas um bocado extremas como a secção “gourmet” , e carregaram na imagem deração de boa qualidade = cão lindo e feliz , o que é uma relação improvável. Como os cães quase não têm sentido do paladar , vai muito do cheiro , textura e consistência da coisa , e pelo pouco que sei da química moderna , muito poucos ingredientes caros , raros ou complicados são precisos para fazer uma ração saudável e que o cão coma bem. Acho que há muita gente a gastar dinheiro demais com uma qualidade superior que não aproveita muito ao animal e de certeza que não o compensa pela falta de umas corridas e brincadeiras e passeios . Ponham lado a lado um cão alimentado a trinca de arroz com molhos da cozinha que todos os dias anda perto dos donos e pode correr e brincar um bocado e outro que come Pedigree Pal Buckingham Palace Special (se não existe deviam inventá-lo) e que vive sozinho numa varanda de 2X4 com duas voltas ao quarteirão à trela por dia e uma corrida ao fim de semana e tenho a certeza de que o mais feliz é o primeiro.
Eu dou ração ao meu cão primeiro porque nunca tenho restos nenhuns , apesar de comer sempre todas a refeições em casa e prepará-las eu ( não digo cozinho porque seria abusar do termo) , tenho mão certa e faço sempre tudo à medida. Segundo porque apesar de desconfiar do marketing sei que o cão precisa mesmo de certos nutrientes , e para ter esse equilíbrio sem rações era preciso cozinhar para o cão , e isso não faço. Faço-o para mim porque não posso comer rações e mesmo que houvesse restaurantes sempre abertos aqui era incomportável , mas não o faço para o cão .Por isso o Rofe começou a existência a comer Friskies Junior , a única ração específica para cachorros disponível aqui, logo , a melhor. Melhor que Friskies Junior só nos veterinários no continente , que nos podem explicar largamente todas as vantagens das marcas superiores e muitos , por coincidência , até as vendem. Friskies Junior custa aqui 26€ por 10kgs , mas pronto , dado que quero um Super Cão pelo menos enquanto está a crescer tenho que lhe dar do melhor , aos meios quilos por dia . O fabricante recomenda dar aquilo até pelo menos um ano de idade. O Rofe tem 7 meses feitos , pelo que ainda tinha pelo menos mais 5 meses a Friskies , mais ou menos 30E por mês , o que para mim nesta altura é muito considerável . Reparei que a Associação de Agricultores também vendia rações para cão , cão em geral sem distinção de idade ou tamanho , e agora o Rofe come Ruff , a 11€ os 18kgs . O saco é como o das ração do resto do gado, a ração parece assim um género de chocapic mais pardo e mais grosso. Ele come lindamente , depois de um incentivo na forma de falta de alternativas, está melhor que nunca , de vez em quando dou-lhe um ovo cru , até parece que se vê o pêlo a brilhar mais . Tem regularmente um osso de vaca fresquinho , tipo tíbia inteira , para triturar e em geral não se ressentiu nada de ter passado da comida dos anúncios para a “marca branca” .
Entretanto começou o programa de treino , 3 vezes por semana , sessões de meia hora , a frequência é para aumentar quando chover menos. Treinar sentar-se , andar ao pé , vir e ficar , a chamada obediência básica . É muito simples e no entanto é complexo e trabalhoso , mas compensa largamente . Se estiver basicamente obediente no começo do Verão podemos subir de nível .
3.3.12
Genocídio no Corvo
Acho que um dos problemas de exagerar na linguagem é que ao longo do tempo as palavras vão perdendo força. Tal como é impossível alguma coisa lavar sempre mais branco ao longo de 50 anos , uma catástrofe não pode por definição durar meses e uma falência não é uma tragédia , apesar de um buraco orçamental poder realmente ser um colosso . Muitas vezes não há medida nenhuma na escolha dos termos , se chamamos repressão policial à manutenção da ordem pública , o que é que vamos dizer no dia em que a polícia de choque dispersar uma manifestação? Guerra civil? E por falar nessa , se escrevemos que um ministro iniciou uma guerra civil por ter assinado um determinado acordo social , não estaremos a gastar depressa demais a reserva finita de hipérboles que podem fazer falta no futuro ? Chamar sempre , metodicamente e sem ser por um entusiasmo momentâneo , pacto de agressão ao acordo de financiamento da dívida portuguesa é um extremo de linguagem que não se justifica .
Os exageros e despropósitos são maus porque a vida económica e social do País depende muito dos discursos , discussões e informação que vai passando , e a linguagem apocalíptica e de confronto não só não ajuda a resolver o problema como o agrava. Os políticos e pessoas que vivem na órbita da Política precisam obviamente de atenção pública , e procuram-na como podem mas muitas vezes abusam da linguagem para marcar a sua posição e fazer a sua propaganda . Sentido das proporções , moderação e bom senso na maneira como se defendem as posições e contestam as dos oponentes faria maravilhas pelo País , e é à borla .
Este texto era para se chamar Pedro e o Lobo , o Pedro era um rapaz com uma função equivalente à dos políticos , numa metáforazinha de que gosto bastante , inspirada um bocado pela Quinta dos Animais do mestre Orwell e outras observações , nomeadamente das ovelhas e sua Economia e Sociedade .
O Rebanho somos nós , o Povo. Os políticos são os Pastores , que devem escolher , conhecer e gerir as pastagens e organizar-nos por elas , para nos ordenharem e tosquiarem regularmente , e em geral zelar pelo rebanho . Basta que haja erva fresca com fartura , que o veterinário tenha tudo sob controlo , que todos andem contentes na altura do cio e que se possa reproduzir e melhorar a espécie . A Imprensa e a Justiça são os cães , alerta aos lobos que rondam sempre de volta dos rebanhos para caçar os mais fracos , quase sempre a abanar a cauda quando vê o pastor e a olhar para o rebanho de cima , como sua responsabilidade . Dão o alarme contra os predadores , acordam o pastor se este adormece , procuram as ovelhas tresmalhadas e com sinais seguros aqui e ali lá encaminham o rebanho pelos caminhos possíveis . Estico a metáfora ao limite a acrescento que as ovelhas se entretêm e gostam de ver a actividade e truques dos cães , que lhes dão uma certa sensação de segurança.
O Pedro Pastor , desejoso de atenção como o Político , lembra-se de gritar “ lobo , lobo ” , os cães acorrem , espantam-se as ovelhas , desinquietam-se os vizinhos , mas toda a gente lhe dá atenção e ouve a sua história , louvam-lhe a coragem e garantem-lhe apoio , mesmo sem sinal de lobo . Com a repetição regular aquilo vai começando a perder efeito , e um dia os lobos vêm mesmo . Os cães já ouviram tantas vezes "lobo" sem nunca terem visto um que não sabem o que fazer , correm para o pastor , protegem umas ovelhas e descuram outras , deixam dividir o rebanho , por fim atacam os lobos mas os cães são sempre menos e pior preparados e nunca nos devemos esquecer de eles mesmos são meros lobos domesticados . O Pedro corre e grita mas os vizinhos já ouviram isso antes , e mesmo que com insistências acabem por acorrer , o dano foi feito , os lobos levaram as ovelhas que quiseram , estropiaram os cães , e o Pedro levou uma carga de pancada do pai , merecida e tardia.
A frequência e o modo como se diz é quase tão importante como o que se diz , não é só uma questão de tom e articulação , é por exemplo a diferença entre falar em "medidas impostas por credores" e "pacto de agressão" para descrever a mesma coisa. Se por um lado há uma tendência para os eufemismos (os aumentos são sempre ajustamentos , por exemplo ) que não ajuda muito à compreensão real e confiança das pessoas , que sabem a diferença entre as duas palavras , do outro há uma dramatização e conflitualidade que ajuda ainda menos .
Para o Bloco de Esquerda é um crime uma fábrica falir e despedir trabalhadores , como ainda agora ouvi o dr. Louçã reiterar num desses acontecimentos . Se o despedimento é um crime , as políticas de austeridade são uma agressão , um corte de subsídios um assalto e um aumento de impostos um massacre , perante a situação dos trabalhadores do sub empreiteiro da Castanheira e Soares no Corvo , como é que eles iriam qualificar aquilo? Genocídio?
Os exageros e despropósitos são maus porque a vida económica e social do País depende muito dos discursos , discussões e informação que vai passando , e a linguagem apocalíptica e de confronto não só não ajuda a resolver o problema como o agrava. Os políticos e pessoas que vivem na órbita da Política precisam obviamente de atenção pública , e procuram-na como podem mas muitas vezes abusam da linguagem para marcar a sua posição e fazer a sua propaganda . Sentido das proporções , moderação e bom senso na maneira como se defendem as posições e contestam as dos oponentes faria maravilhas pelo País , e é à borla .
Este texto era para se chamar Pedro e o Lobo , o Pedro era um rapaz com uma função equivalente à dos políticos , numa metáforazinha de que gosto bastante , inspirada um bocado pela Quinta dos Animais do mestre Orwell e outras observações , nomeadamente das ovelhas e sua Economia e Sociedade .
O Rebanho somos nós , o Povo. Os políticos são os Pastores , que devem escolher , conhecer e gerir as pastagens e organizar-nos por elas , para nos ordenharem e tosquiarem regularmente , e em geral zelar pelo rebanho . Basta que haja erva fresca com fartura , que o veterinário tenha tudo sob controlo , que todos andem contentes na altura do cio e que se possa reproduzir e melhorar a espécie . A Imprensa e a Justiça são os cães , alerta aos lobos que rondam sempre de volta dos rebanhos para caçar os mais fracos , quase sempre a abanar a cauda quando vê o pastor e a olhar para o rebanho de cima , como sua responsabilidade . Dão o alarme contra os predadores , acordam o pastor se este adormece , procuram as ovelhas tresmalhadas e com sinais seguros aqui e ali lá encaminham o rebanho pelos caminhos possíveis . Estico a metáfora ao limite a acrescento que as ovelhas se entretêm e gostam de ver a actividade e truques dos cães , que lhes dão uma certa sensação de segurança.
O Pedro Pastor , desejoso de atenção como o Político , lembra-se de gritar “ lobo , lobo ” , os cães acorrem , espantam-se as ovelhas , desinquietam-se os vizinhos , mas toda a gente lhe dá atenção e ouve a sua história , louvam-lhe a coragem e garantem-lhe apoio , mesmo sem sinal de lobo . Com a repetição regular aquilo vai começando a perder efeito , e um dia os lobos vêm mesmo . Os cães já ouviram tantas vezes "lobo" sem nunca terem visto um que não sabem o que fazer , correm para o pastor , protegem umas ovelhas e descuram outras , deixam dividir o rebanho , por fim atacam os lobos mas os cães são sempre menos e pior preparados e nunca nos devemos esquecer de eles mesmos são meros lobos domesticados . O Pedro corre e grita mas os vizinhos já ouviram isso antes , e mesmo que com insistências acabem por acorrer , o dano foi feito , os lobos levaram as ovelhas que quiseram , estropiaram os cães , e o Pedro levou uma carga de pancada do pai , merecida e tardia.
A frequência e o modo como se diz é quase tão importante como o que se diz , não é só uma questão de tom e articulação , é por exemplo a diferença entre falar em "medidas impostas por credores" e "pacto de agressão" para descrever a mesma coisa. Se por um lado há uma tendência para os eufemismos (os aumentos são sempre ajustamentos , por exemplo ) que não ajuda muito à compreensão real e confiança das pessoas , que sabem a diferença entre as duas palavras , do outro há uma dramatização e conflitualidade que ajuda ainda menos .
Para o Bloco de Esquerda é um crime uma fábrica falir e despedir trabalhadores , como ainda agora ouvi o dr. Louçã reiterar num desses acontecimentos . Se o despedimento é um crime , as políticas de austeridade são uma agressão , um corte de subsídios um assalto e um aumento de impostos um massacre , perante a situação dos trabalhadores do sub empreiteiro da Castanheira e Soares no Corvo , como é que eles iriam qualificar aquilo? Genocídio?
2.3.12
A greve no Corvo
Volto ao assunto porque naturalmente a notícia passou de novo ontem de manhã mas à tarde já deu lugar a coisas mais importantes tipo o clássico desta noite . Ou seja , o problema desapareceu.
Fiz uma busca no site da RDP , apareceu este artigo DE HÁ UM MÊS , desculpem lá levantar a voz , mas provando que o problema não é de hoje , eu já ouço falar nestes infelizes há mais de 3 meses . A notícia que ouvi ontem está aqui , para guardar no álbum das ofensas à dignidade de toda a gente , desde os 7 que ainda lá estão até à minha , que tenho que partilhar um país , uma região , uma ilha , um governo e um sistema com gente capaz disto.
Esta história é horrível e tem de tudo : Obras mal explicadas e financiadas ; falta de alcance do Estado , ; incompetência ; prácticas criminosas e fraudulentas ; exploração dos trabalhadores ; racismo ; ambição ; insensibilidade ; chantagem ; isolamento geográfico e , de certa maneira , moral e miséria humana que chegue , tudo no cenário irreal da ilha do Corvo.
Eu se fosse jornalista estava só à espera que este temporal amainasse para ir para lá
Fiz uma busca no site da RDP , apareceu este artigo DE HÁ UM MÊS , desculpem lá levantar a voz , mas provando que o problema não é de hoje , eu já ouço falar nestes infelizes há mais de 3 meses . A notícia que ouvi ontem está aqui , para guardar no álbum das ofensas à dignidade de toda a gente , desde os 7 que ainda lá estão até à minha , que tenho que partilhar um país , uma região , uma ilha , um governo e um sistema com gente capaz disto.
Esta história é horrível e tem de tudo : Obras mal explicadas e financiadas ; falta de alcance do Estado , ; incompetência ; prácticas criminosas e fraudulentas ; exploração dos trabalhadores ; racismo ; ambição ; insensibilidade ; chantagem ; isolamento geográfico e , de certa maneira , moral e miséria humana que chegue , tudo no cenário irreal da ilha do Corvo.
Eu se fosse jornalista estava só à espera que este temporal amainasse para ir para lá
1.3.12
Greve a Sério
Passa-se aqui ao lado no Corvo um drama laboral que pede meças a tudo o que de mau vai acontecendo em Portugal , a notícia foi dada ontem na Antena 1 Açores e hoje felizmente continua , mas calculo que amanhã , mesmo que não haja resolução , já não lhe liguem. No continente isto nunca interessa , porque somos poucos e estamos longe e as televisões estão mais interessadas em peças magníficas como as que vi ontem ( vi o telejornal porque estava a espera para ver a Selecção ) , uma belíssima peça de actualidade sobre a possibilidade de chuva hoje que incluía entrevistas num cabeleireiro e uma conversa com uma senhora que tinha por sua vez falado com um assassino demente que já se suicidou . Temas fortes da actualidade. Cambada de palhaços.
O mês passado escrevi aqui que a Castanheira e Soares , empresa de construção civil e o maior empregador da Ilha , estava falida. O tribunal está a apreciar um requerimento de falência porque devem 25 milhões , o sr. Castanheira , que com muito mérito foi de cantoneiro a milionário em 30 anos , diz que não , porque lhe devem 6 milhões. Esta ascensão de cantoneiro a empresário infelizmente não passou pela escolaridade obrigatória ( eu nem peço MBA's , peço que não sejam semi analfabetos) por isso o homem acha que o clima económico é favorável à recuperação uma empresa de construção civil regional com 19 milhões de euros de dívidas . A mansão incabada do sr. Castanheira vê-se na encosta sobre Santa Cruz , monumento à sua ambição , falta de gosto e destino.
Voltando ao Corvo , era uma das ilhas em que a C&S tinha obras. Como boa construtora portuguesa , a C&S subcontratava , ou seja , concorria para obras que não tinha capacidade própria de executar mas , fruto de ligações mais ou menos claras e orçamentos judiciosos ( ver o balanço actual da empresa) , ganhava as obras e depois sub contratava , ou seja , era em muitos casos um mero comissionista , sistema que custou biliões ao estado ao longo dos anos e gerou fortunas como a do Sr. Castanheira.
Desde Novembro que os operários sub contratados pela C&S no Corvo não recebem salário. O Corvo tem as contas em dia com a C&S , e ainda decorre uma obra. Os operários , depois de 3 meses sem receber , estão em greve , daquela verdadeira . O seu contrato incluía alojamento e refeições , deixo à vossa imaginação o alojamento e alimentação posto à disposição destes trabalhadores , a maior parte imigrantes.
Então ontem a C&S avisou os trabalhadores que se não voltassem ao trabalho deixavam de comer na cantina e de dormir nos barracos onde os alojam. Assim , sem mais nem menos .Devem 5 meses de salário a esta gente e como se isso não bastasse fazem chantagem : ou voltam ao trabalho , sem receber , ou não comem. Isto é quase medieval , e lembremo-nos bem de que estes homens estão isolados no extremo mais remoto do País , onde não se podem meter num autocarro ou comboio ou pedir uma boleia para outro lado qualquer. Estão isolados , muito longe de casa , não lhes pagam e querem forçá-los a trabalhar.
É a Caritas e a Acção Social que estão a amparar estes desgraçados , que provavelmente não são sindicalizados , nem portugueses , pelo que não aparecem no radar . Aliás , vou seguir o caso como puder e se algum sindicato tiver alguma intercessão neste caso além de arrotar postas de pescada e repetir cassetes , mudo de opinião sobre eles e presto-lhes aqui homenagem.
O mês passado escrevi aqui que a Castanheira e Soares , empresa de construção civil e o maior empregador da Ilha , estava falida. O tribunal está a apreciar um requerimento de falência porque devem 25 milhões , o sr. Castanheira , que com muito mérito foi de cantoneiro a milionário em 30 anos , diz que não , porque lhe devem 6 milhões. Esta ascensão de cantoneiro a empresário infelizmente não passou pela escolaridade obrigatória ( eu nem peço MBA's , peço que não sejam semi analfabetos) por isso o homem acha que o clima económico é favorável à recuperação uma empresa de construção civil regional com 19 milhões de euros de dívidas . A mansão incabada do sr. Castanheira vê-se na encosta sobre Santa Cruz , monumento à sua ambição , falta de gosto e destino.
Voltando ao Corvo , era uma das ilhas em que a C&S tinha obras. Como boa construtora portuguesa , a C&S subcontratava , ou seja , concorria para obras que não tinha capacidade própria de executar mas , fruto de ligações mais ou menos claras e orçamentos judiciosos ( ver o balanço actual da empresa) , ganhava as obras e depois sub contratava , ou seja , era em muitos casos um mero comissionista , sistema que custou biliões ao estado ao longo dos anos e gerou fortunas como a do Sr. Castanheira.
Desde Novembro que os operários sub contratados pela C&S no Corvo não recebem salário. O Corvo tem as contas em dia com a C&S , e ainda decorre uma obra. Os operários , depois de 3 meses sem receber , estão em greve , daquela verdadeira . O seu contrato incluía alojamento e refeições , deixo à vossa imaginação o alojamento e alimentação posto à disposição destes trabalhadores , a maior parte imigrantes.
Então ontem a C&S avisou os trabalhadores que se não voltassem ao trabalho deixavam de comer na cantina e de dormir nos barracos onde os alojam. Assim , sem mais nem menos .Devem 5 meses de salário a esta gente e como se isso não bastasse fazem chantagem : ou voltam ao trabalho , sem receber , ou não comem. Isto é quase medieval , e lembremo-nos bem de que estes homens estão isolados no extremo mais remoto do País , onde não se podem meter num autocarro ou comboio ou pedir uma boleia para outro lado qualquer. Estão isolados , muito longe de casa , não lhes pagam e querem forçá-los a trabalhar.
É a Caritas e a Acção Social que estão a amparar estes desgraçados , que provavelmente não são sindicalizados , nem portugueses , pelo que não aparecem no radar . Aliás , vou seguir o caso como puder e se algum sindicato tiver alguma intercessão neste caso além de arrotar postas de pescada e repetir cassetes , mudo de opinião sobre eles e presto-lhes aqui homenagem.
29.2.12
27.2.12
Movimentos Contra a Crise
O governo montou um site chamado "o meu movimento" a convidar as pessoas a dar ideias para apreciação e discussão pública. O promotor da que tiver mais apoiantes ao fim de não sei quanto tempo vai almoçar com o Primeiro Ministro e expor-lhe o seu plano. Acho óptimo , devia ser expandido , anunciado na televisão e rádio e alargado o prazo e o “prémio” a encontros com outros ministros , consoante a área da proposta . Podem-me dizer que é uma operação de relações públicas , é e também fazem falta , mas é obviamente bom , a não ser para quem desconfia das capacidades do cidadão que não se move em organizações partidárias , que pode nem ter opinião política formada mas é atento e pode olhar para uma coisa que está mal e pensar numa maneira de a resolver , e se lhe derem oportunidade até a desenvolve e estrutura.
No meio de tanta ideia que já apareceu e de tantas que ainda estão para aparecer ,algumas imbecis e impracticáveis , a maior parte quer dinheiro sob a designação de "dignificação" ou "melhoramento" , aparecerem até ver 985 propostas , até há quem queira acabar com a "economia baseada em recursos" , o que certamente seria interessante e inovador , mas há uma que me parece estupenda , e que apoio sem reservas: a adopção de uniformes em todas as Escolas Públicas do país. O senhor que o criou apresenta a medida como "eliminar vícios do consumismo" , o que é um bocado redutor , e não se explicou muito bem , o que é pena . Vantagens :
Desincentiva-se (para não dizer acaba) a distinção e discriminação entre alunos baseada na roupa que vestem . Essa pressão social das marcas é perniciosa , acho que isto é consensual , e se toda a gente vai para escola vestido de igual , especialmente desde pequenino , há mais igualdade onde ela mais conta , nos bancos da escola onde se aprende a ser gente . Há-de sempre haver os que têm nikes e outros que não , mas se anda tudo de sapatilhas brancas pouco se nota.
A poupança para os pais é tremenda , tanto para os que apenas querem que os seus filhos andem limpos e apresentáveis como para os que fazem dos filhos montra do seu gosto e poder de compra. Dois uniformes para um ano lectivo inteiro , e que ainda podem ficar para os irmãos , são centenas de euros de poupança.
As escolas têm mais facilidade em identificar e controlar as hordas , e aproveitam para instilar orgulho na sua escola que os alunos devem ter. Os uniformes ajudam a isso , e até são bons para os rebeldes , sai muito mais barato e simples infringir as normas e queixarem-se da opressão.
É uma maneira muito eficaz e simples , quer-me parecer , de prestar apoio social aos alunos mais pobres , com uns 200 euros por ano (não fiz as contas , parece-me) compram-se dois uniformes , e com essa quantia anual tão pequena faz-se uma diferença grande no orçamento das famílias e na dignidade dos alunos mais pobres . Acho que é um investimento com muito retorno.
As escolas podem escolher se querem desenhar os uniformes ( tantos professores de artes visuais e milhares de alunos desejosos de projectos certamente conseguem) ou adaptar um desenho a partir de um modelo geral , mas quanto mais independentes nesse aspecto mais serviço dão ao textil nacional e negócios locais. Não é re-inventar a roda , fazer passagens de modelos ou ter uma ideia original para o uniforme , toda a gente tem uma ideia muito clara do que é um uniforme escolar tal como toda a gente tem uma ideia muito clara da farda de um enfermeiro ou hospedeira , apesar das centenas de variedades que há.
Hoje os uniformes têm o efeito de conceder uma real ou aparente excelência , superioridade e distinção aos colégios privados , junto do público em geral e dos dos próprios miúdos . Não tenho absolutamente nada contra o ensino privado e é muito necessário , mas adorava ver , de um ano lectivo para o outro , todos os alunos do País a ir para a escola vestidos de alunos.
Desvantagens? Não vejo. Há-de haver objecções , os sindicatos terão forçosamente que ter várias e gostava de as conhecer . Dado que é uma medida que não afecta absolutamente nada os professores , nem nos seus deveres nem obrigações , parece-me que o sindicato dos professores não tem por onde lhe pegar , mas eu já ouvi o chefe do sindicato dos professores indignado contra uma medida qualquer que o Governo queria implementar e que já não me ocorre , mas não me esqueço das suas palavras : “ninguém sabe qual pode ser o resultado desta medida!”. Ou seja , ele também não sabia se podia ser bom ou mau , obviamente o que estava em causa ali era que havia uma medida do governo , que pela sua natureza exige oposição.
Existirão objecções e dificuldades de implementação , mas acredito que é daquelas coisas que podia ser mudada com um meia dúzia de parágrafos ( falo sujeito a ser severamente corrigido) e pode fazer uma grande diferença no curto e longo prazo , não apenas pela poupança agregada das famílias nem pela eficiência da gestão ou melhores resultados dos alunos mas muito mais pela valorização da igualdade desde pequenos. Não vejo nenhuma objecção válida que alguém possa ter nesta altura , além dos próprios alunos . Esses naturalmente só têm que ouvir , dos pais : tens 12 anos , não tens voto nessa matéria.
PS: o movimento que vai provavelmente "ganhar" este concurso é um pela proibição das Touradas. Pedem-se ideias para combater a crise , oferece-se uma para combater um espectáculo , arte e ofício que uma minoria não aprecia , destruir uma indústria e uma raça animal e chatear centenas de milhar de pessoas , com impacto económico negativo para o País . Acho que não era esse o objectivo do exercício.
No meio de tanta ideia que já apareceu e de tantas que ainda estão para aparecer ,algumas imbecis e impracticáveis , a maior parte quer dinheiro sob a designação de "dignificação" ou "melhoramento" , aparecerem até ver 985 propostas , até há quem queira acabar com a "economia baseada em recursos" , o que certamente seria interessante e inovador , mas há uma que me parece estupenda , e que apoio sem reservas: a adopção de uniformes em todas as Escolas Públicas do país. O senhor que o criou apresenta a medida como "eliminar vícios do consumismo" , o que é um bocado redutor , e não se explicou muito bem , o que é pena . Vantagens :
Desincentiva-se (para não dizer acaba) a distinção e discriminação entre alunos baseada na roupa que vestem . Essa pressão social das marcas é perniciosa , acho que isto é consensual , e se toda a gente vai para escola vestido de igual , especialmente desde pequenino , há mais igualdade onde ela mais conta , nos bancos da escola onde se aprende a ser gente . Há-de sempre haver os que têm nikes e outros que não , mas se anda tudo de sapatilhas brancas pouco se nota.
A poupança para os pais é tremenda , tanto para os que apenas querem que os seus filhos andem limpos e apresentáveis como para os que fazem dos filhos montra do seu gosto e poder de compra. Dois uniformes para um ano lectivo inteiro , e que ainda podem ficar para os irmãos , são centenas de euros de poupança.
As escolas têm mais facilidade em identificar e controlar as hordas , e aproveitam para instilar orgulho na sua escola que os alunos devem ter. Os uniformes ajudam a isso , e até são bons para os rebeldes , sai muito mais barato e simples infringir as normas e queixarem-se da opressão.
É uma maneira muito eficaz e simples , quer-me parecer , de prestar apoio social aos alunos mais pobres , com uns 200 euros por ano (não fiz as contas , parece-me) compram-se dois uniformes , e com essa quantia anual tão pequena faz-se uma diferença grande no orçamento das famílias e na dignidade dos alunos mais pobres . Acho que é um investimento com muito retorno.
As escolas podem escolher se querem desenhar os uniformes ( tantos professores de artes visuais e milhares de alunos desejosos de projectos certamente conseguem) ou adaptar um desenho a partir de um modelo geral , mas quanto mais independentes nesse aspecto mais serviço dão ao textil nacional e negócios locais. Não é re-inventar a roda , fazer passagens de modelos ou ter uma ideia original para o uniforme , toda a gente tem uma ideia muito clara do que é um uniforme escolar tal como toda a gente tem uma ideia muito clara da farda de um enfermeiro ou hospedeira , apesar das centenas de variedades que há.
Hoje os uniformes têm o efeito de conceder uma real ou aparente excelência , superioridade e distinção aos colégios privados , junto do público em geral e dos dos próprios miúdos . Não tenho absolutamente nada contra o ensino privado e é muito necessário , mas adorava ver , de um ano lectivo para o outro , todos os alunos do País a ir para a escola vestidos de alunos.
Desvantagens? Não vejo. Há-de haver objecções , os sindicatos terão forçosamente que ter várias e gostava de as conhecer . Dado que é uma medida que não afecta absolutamente nada os professores , nem nos seus deveres nem obrigações , parece-me que o sindicato dos professores não tem por onde lhe pegar , mas eu já ouvi o chefe do sindicato dos professores indignado contra uma medida qualquer que o Governo queria implementar e que já não me ocorre , mas não me esqueço das suas palavras : “ninguém sabe qual pode ser o resultado desta medida!”. Ou seja , ele também não sabia se podia ser bom ou mau , obviamente o que estava em causa ali era que havia uma medida do governo , que pela sua natureza exige oposição.
Existirão objecções e dificuldades de implementação , mas acredito que é daquelas coisas que podia ser mudada com um meia dúzia de parágrafos ( falo sujeito a ser severamente corrigido) e pode fazer uma grande diferença no curto e longo prazo , não apenas pela poupança agregada das famílias nem pela eficiência da gestão ou melhores resultados dos alunos mas muito mais pela valorização da igualdade desde pequenos. Não vejo nenhuma objecção válida que alguém possa ter nesta altura , além dos próprios alunos . Esses naturalmente só têm que ouvir , dos pais : tens 12 anos , não tens voto nessa matéria.
PS: o movimento que vai provavelmente "ganhar" este concurso é um pela proibição das Touradas. Pedem-se ideias para combater a crise , oferece-se uma para combater um espectáculo , arte e ofício que uma minoria não aprecia , destruir uma indústria e uma raça animal e chatear centenas de milhar de pessoas , com impacto económico negativo para o País . Acho que não era esse o objectivo do exercício.
24.2.12
Falklands Forever
Há 30 anos os generais que mandavam na Argentina começaram a ver o caso malparado porque os abusos e malfeitorias já não passavam muito bem. Recorreram então ao velho truque de encontrar um inimigo externo para desviar as atenções da própria incompetência e focar a energia nacional unindo o povo numa causa comum , com eles à cabeça. Já funcionou muitas vezes e teve practicantes famosos e ainda vivos , desde o Fidel Castro ao George W. Bush. Escolheram as Falklands , ou Malvinas e acharam que o Reino Unido , afogado numa crise económica e de valores , não ia lutar numa causa que não só era globalmente impopular se fosse apresentada como neo-colonialismo mas como estavam a 8 mil milhas de distância a sua posição era muito difícil. Puxaram o lustro aos galões de generais que nunca tinham lutado numa guerra sendo a sua experiência militar a de oprimir o próprio povo , fizeram discursos inflamados , mandaram tocar a banda e avançar para as ilhas uma força de ocupação. A diferença entre "libertação" e "ocupação" é muitas vezes pouco clara , este foi mais um caso. Os Argentinos nunca tinham feito nada pelo arquipélago , antes ou depois de 1833 , altura em que o estatuto foi definitivamente estabelecido.A invasãozinha correu-lhes mal , se soubessem um pouco de História tinham percebido que os Britânicos nunca foram conhecidos por deixar que lhes roubassem territórios , mesmo pequenas ilhas remotas, antes pelo contrário. Mas o cálculo mais fatal que fizeram foi subestimar a senhora Thatcher. Uma mulher , o que é que vai fazer uma mulher? Bom , a mulher não hesitou e mandou a Marinha e os Fuzileiros com tudo o que tinham . Os Argentinos invadiram em Abril , em Junho já tinham levado uma tareia e voltado a Buenos Aires , muitos deles a pedir contas aos generais pela ideia de merda que tinham tido . A queda da Junta militar não demorou , pelo que os Argentinos ainda deviam era agradecer aos Ingleses terem dado o empurrão aos generais.
Mas não. Passam 30 anos , e na Argentina já não mandam generais , manda uma vamp chamada Cristina Kirshner que herdou a presidência por simpatia ao marido ex presidente , senhora muito populista num país onde isso é tradição enraizada . Entre outros métodos , antes da última eleição disse que tinha cancro e ia ser operada , a simpatia impulsionou em muito as intenções de voto, ganhou e veio dizer que afinal não tinha cancro. Ou a Presidência Argentina está muito mal servida de médicos ou foi pura artimanha . As Malvinas são outra . A recuperação do desastre da falência de 2002 começa a perder fôlego , muita gente não gosta de prepotência dela e acha que neste século para Evita só a Madonna , pelo que em vez de resolver os problemas reais da economia e dos cidadãos escolhe galvanizar o povo com o famoso inimigo externo , e tem em curso uma campanha pela "recuperação" das Malvinas.
O PM Inglês já disse várias vezes , tal como tinha dito o seu antecessor: A Inglaterra não discute a soberania das Malvinas a menos que seja essa a vontade dos habitantes das Malvinas. Isto parece-me a mim uma posição inequívoca e inatacável , e dado que os 3 mil e tal Falklanders querem continuar tal como estão e já o disseram várias vezes ( e resistiram a tiro aos Argentinos em 82) , a questão devia estar encerrada e os Argentinos deviam ter vergonha , especialmente o ministro dos negócios estrangeiros , que por incrível que pareça veio acusar os Ingleses de "tentar desviar as atenções dos seus problemas internos".Outro que se esqueceu que em primeiro lugar se a questão ainda existe é porque os Argentinos a levantam , em segundo que em 82 os problemas da Inglaterra eram muito mais graves que hoje e mesmo assim chegou bem para derrotar e pôr em fuga os Argentinos. A sra Kirschner devia-se dedicar a outras manobras tipo fingir cancros para ganhar eleições , que pelo menos essas não arriscam levar o país para a guerra .
Mas não. Passam 30 anos , e na Argentina já não mandam generais , manda uma vamp chamada Cristina Kirshner que herdou a presidência por simpatia ao marido ex presidente , senhora muito populista num país onde isso é tradição enraizada . Entre outros métodos , antes da última eleição disse que tinha cancro e ia ser operada , a simpatia impulsionou em muito as intenções de voto, ganhou e veio dizer que afinal não tinha cancro. Ou a Presidência Argentina está muito mal servida de médicos ou foi pura artimanha . As Malvinas são outra . A recuperação do desastre da falência de 2002 começa a perder fôlego , muita gente não gosta de prepotência dela e acha que neste século para Evita só a Madonna , pelo que em vez de resolver os problemas reais da economia e dos cidadãos escolhe galvanizar o povo com o famoso inimigo externo , e tem em curso uma campanha pela "recuperação" das Malvinas.
O PM Inglês já disse várias vezes , tal como tinha dito o seu antecessor: A Inglaterra não discute a soberania das Malvinas a menos que seja essa a vontade dos habitantes das Malvinas. Isto parece-me a mim uma posição inequívoca e inatacável , e dado que os 3 mil e tal Falklanders querem continuar tal como estão e já o disseram várias vezes ( e resistiram a tiro aos Argentinos em 82) , a questão devia estar encerrada e os Argentinos deviam ter vergonha , especialmente o ministro dos negócios estrangeiros , que por incrível que pareça veio acusar os Ingleses de "tentar desviar as atenções dos seus problemas internos".Outro que se esqueceu que em primeiro lugar se a questão ainda existe é porque os Argentinos a levantam , em segundo que em 82 os problemas da Inglaterra eram muito mais graves que hoje e mesmo assim chegou bem para derrotar e pôr em fuga os Argentinos. A sra Kirschner devia-se dedicar a outras manobras tipo fingir cancros para ganhar eleições , que pelo menos essas não arriscam levar o país para a guerra .
22.2.12
Já vai para mais de uma semana com o céu enevoado ou mesmo cerrado , vendavais e aguaceiros , está-me a mexer um bocadinho com os nervos. Antes de vir para aqui perguntavam-me “então e aguentas-te com aqueles Invernos?”. Até ver aguento , mas começa-me a custar , ensombra-me a disposição , são os pormenores que irritam como ter que ter a roupa a secar dentro de casa .
Mas já se vêm rebentos , daqui a um mesinho começa a Primavera , está quase. E depois para o próximo Inverno já devo estar na minha própria casa , pensada , sonhada , desenhada e reconstruída por mim à minha medida exacta e isso vai fazer uma grande diferença. Mas por agora estou quase saturado de bruma , chuva , vento e céu encoberto , felizmente nunca está muito frio , essa é uma das razões porque eu adoro isto , nunca faz muito frio. Passei os últimos 10 anos com pouco ou nenhum Inverno tal como o entendemos , tinha períodos curtos em sítios onde estava frio mas a vida era principalmente nos Trópicos e tinha duas estações , ambas quentes. Dava-me bem com isso , mas o clima não compensava as outras desvantagens de viver nos Trópicos , nomeadamente ter que me adaptar ao resto das pessoas que vive nos Trópicos.
Bom , tudo indica que vou sobreviver ao afamado e agreste Inverno Açoreano sem dar em mais maluco ainda , apesar de não me ter lembrado que tendo animais ao meu cuidado ia estar exposto diariamente às intempéries , e sair dessa exposição obrigatória foi uma das razões que me fez deixar de navegar....
Ontem como todas as manhãs entrei com um braçado de silagem no cercado das ovelhas , nisto o carneiro recuou três passos , investiu e deu-me uma marrada que me assustou mais do que doeu e me deixou espantado. Como tinha escrito aqui antes , ele até me vinha comer à mão e em 3 meses nunca tinha sequer ameaçado nada disto. Saí , voltei a entrar , ele fez o mesmo mas desta vez não me apanhou porque fugi a tempo. Ri-me a pensar que ele estava agastado com a derrota do Benfica em Guimarães (ele chama-se Lampião) , fui buscar um barrote e voltei. Ele fez o mesmo e levou com o barrote na cabeça , duas vezes para a mensagem passar. Fiquei intrigado com aquilo , e preocupado porque se o carneiro agora deu em marrar complica-me bastante a vida , mas os animais são mais fáceis de compreender e lidar do que as pessoas , e já tenho uma explicação , ainda por confirmar: uma das ovelhas deve estar com o cio , o amor está no ar e o gajo não quer concorrência. Isto é outra mina para os meus amigos australianos e ingleses que têm um fundo enorme de piadas sobre as relações entre pastores e ovelhas e perdem poucas oportunidades de mo lembrar . Espero bem que seja isso que agastou o carneiro , o meu livro não diz nada sobre o assunto ( aliás , o livro é uma bela merda , indicado para quem quer ter ovelhas como bicho de estimação) e não queria agora passar a ter que ir de barrote na mão de cada vez que entro no cercado , sempre de olho no Lampião.
Entretanto está tudo a postos para vender borregos para o talho da Associação Agrícola , eles compram um por semana seguindo uma lista em que os sócios se inscrevem , para a semana vai o primeiro meu , com 6 ovelhas posso chegar a vender um por mês , mais ou menos . Estou contente porque apesar de ter que vender uns 30 borregos até recuperar o investimento inicial é o princípio que conta , tenho a minha exploração agrícola regularizada , tenho o sistema montado , melhor ou pior , sou sócio da Associação e vou ter um rendimento com uma coisa que criei sozinho. No futuro espero poder ter mais que um borrego por mês , já para não falar das aplicações da lã e , quem sabe , queijo de ovelha .
E a cerveja , espero finalmente ver aprovado o último nome que escolhi : Da Ilha , Cerveja da Ilha. Nada mau.
Mas já se vêm rebentos , daqui a um mesinho começa a Primavera , está quase. E depois para o próximo Inverno já devo estar na minha própria casa , pensada , sonhada , desenhada e reconstruída por mim à minha medida exacta e isso vai fazer uma grande diferença. Mas por agora estou quase saturado de bruma , chuva , vento e céu encoberto , felizmente nunca está muito frio , essa é uma das razões porque eu adoro isto , nunca faz muito frio. Passei os últimos 10 anos com pouco ou nenhum Inverno tal como o entendemos , tinha períodos curtos em sítios onde estava frio mas a vida era principalmente nos Trópicos e tinha duas estações , ambas quentes. Dava-me bem com isso , mas o clima não compensava as outras desvantagens de viver nos Trópicos , nomeadamente ter que me adaptar ao resto das pessoas que vive nos Trópicos.
Bom , tudo indica que vou sobreviver ao afamado e agreste Inverno Açoreano sem dar em mais maluco ainda , apesar de não me ter lembrado que tendo animais ao meu cuidado ia estar exposto diariamente às intempéries , e sair dessa exposição obrigatória foi uma das razões que me fez deixar de navegar....
Ontem como todas as manhãs entrei com um braçado de silagem no cercado das ovelhas , nisto o carneiro recuou três passos , investiu e deu-me uma marrada que me assustou mais do que doeu e me deixou espantado. Como tinha escrito aqui antes , ele até me vinha comer à mão e em 3 meses nunca tinha sequer ameaçado nada disto. Saí , voltei a entrar , ele fez o mesmo mas desta vez não me apanhou porque fugi a tempo. Ri-me a pensar que ele estava agastado com a derrota do Benfica em Guimarães (ele chama-se Lampião) , fui buscar um barrote e voltei. Ele fez o mesmo e levou com o barrote na cabeça , duas vezes para a mensagem passar. Fiquei intrigado com aquilo , e preocupado porque se o carneiro agora deu em marrar complica-me bastante a vida , mas os animais são mais fáceis de compreender e lidar do que as pessoas , e já tenho uma explicação , ainda por confirmar: uma das ovelhas deve estar com o cio , o amor está no ar e o gajo não quer concorrência. Isto é outra mina para os meus amigos australianos e ingleses que têm um fundo enorme de piadas sobre as relações entre pastores e ovelhas e perdem poucas oportunidades de mo lembrar . Espero bem que seja isso que agastou o carneiro , o meu livro não diz nada sobre o assunto ( aliás , o livro é uma bela merda , indicado para quem quer ter ovelhas como bicho de estimação) e não queria agora passar a ter que ir de barrote na mão de cada vez que entro no cercado , sempre de olho no Lampião.
Entretanto está tudo a postos para vender borregos para o talho da Associação Agrícola , eles compram um por semana seguindo uma lista em que os sócios se inscrevem , para a semana vai o primeiro meu , com 6 ovelhas posso chegar a vender um por mês , mais ou menos . Estou contente porque apesar de ter que vender uns 30 borregos até recuperar o investimento inicial é o princípio que conta , tenho a minha exploração agrícola regularizada , tenho o sistema montado , melhor ou pior , sou sócio da Associação e vou ter um rendimento com uma coisa que criei sozinho. No futuro espero poder ter mais que um borrego por mês , já para não falar das aplicações da lã e , quem sabe , queijo de ovelha .
E a cerveja , espero finalmente ver aprovado o último nome que escolhi : Da Ilha , Cerveja da Ilha. Nada mau.
18.2.12
Carnaval
Devia ter uns 7 anos quando a minha irmã me subornou com 5 escudos para ir para a escola mascarado de minhota. Não seu qual seria a correspondência actual dos cinco escudos mas a fotografia que existe do evento mostra que não estava muito convencido nem encantado pela ideia , devia ter alguma utilização pensada para a quantia que fazia a humilhação valer a pena.
Há coisa de 20 anos mascarámo-nos , o gang das motos , à Ku Klux Klan , cruz a a arder e tudo , o que à distância parece estúpido e seria ofensivo se houvesse negros na minha terra nessa altura . Não tenho mais memórias nem participei em mais carnavais , sobretudo por causa da música. Dpois de séculos de entrudo tradicional um iluminado qualquer foi ao Brasil e regressou com o samba como banda sonora exclusiva. Ao samba juntou-se o axé , o forró , a miríade de géneros e ritmos em que os Brasileiros se excedem e que maravilham o mundo , menos a mim. Gosto da ideia dos bailes de máscaras , mas a cabeleira do zezé e o tira o pé do chão dão-me camadas de nervos e comprometeram a minha participação nos festejos. E depois o excesso e rebaldaria pode ser libertador , mas eu sempre descomprimi quando precisava e não quando estava marcado que era hora de descomprimir , sempre desconfiei da folia com hora marcada , não acho mal mas prefiro não colaborar.
Ontem já era Carnaval , de manhã cedo recebi um telefonema de dois grandes amigos para os quais ainda era de noite , um deles estava incoerente o outro falava do Deco na capa de uma revista cheia de gasóleo, o Carnaval também é feito dessas coisas e eu para esse peditório já dei , apesar de ter ficado contente por eles se terem lembrado de me mandar um abraço mesmo com os neurónios todos em curto circuito.
Aqui há danças de Carnaval , tradições com séculos em que as Freguesias se juntam , mascaram , fazem umas músicas e vão visitar outras freguesias . Há uma fajã , a que se chega depois de uns 2kms a pé por caminhos onde não passa um carro , a pique pela encosta abaixo , onde até há 50 anos viviam pessoas , e não eram poucas , só mesmo indo lá abaixo se pode apreciar o que era o isolamento e as condições de vida destas pessoas . Todos os anos até pelo menos 1950 as pessoas do Porto da Lomba , que viviam no limiar da miséria , juntavam-se , mascaravam-se com o que havia e subiam às Lajes com cantos e danças. Não havia samba nem fantasias elaboradas , havia alegria genuína, porque rara , e versões disto havia por todo o país. Nessa altura em primeiro lugar havia uma religiosidade que hoje desapareceu , para o bem e para o mal, e festejava-se porque a seguir começava a Quaresma , tempo de contrição , reflexão e sacrifício . Também se celebrava porque ao longo do ano não havia quase mais ocasião nenhuma , nem meios , para festejar . São resquícios disso que se vêm nas moças de biquini , lantejoulas e plumas , enregeladas por Ovar ou Torres Vedras , uma reminiscência de uma tradição que quiseram injectar com a alegria e ritmo dos Trópicos com um resultado que eu acho patético. Mas o que eu acho mesmo é que as pessoas se devem divertir como bem entendem desde que não prejudiquem o próximo .
O ano passado deu-se a circunstância muito curiosa de termos a chegar a Portugal o grupo de pessoas que ia coordenar o nosso resgate financeiro , as pessoas que iam assinar o cheque para evitar a falência da Nação. Enquanto estes indivíduos , alvo do escárnio e insultos de muita gente que acha que as más notícias desaparecem se matarmos o mensageiro , se instalaram num gabinete a coordenar esse regaste a Nação meteu 5 dias de férias , mascarou-se e foi sambar , ou ver sambar. Não gostava de ter sido eu a explicar à Troika o que se estava a passar , e se eu fosse parte da Troika , ao saber que havia feriado e "tolerância de ponto" , metia os meus papéis na pastinha , dizia "então bom Carnaval e felicidades" e chamava um taxi para o aeroporto.
Este ano o 1º Ministro achou que já chegava de vergonhas e "acabou com o Carnaval". A mim e desconfio que à vasta maioria da população isto não altera a vida em nada , mas claro que há sempre alguém prejudicado . Como em tantas outras medidas e declarações do Governo , houve falha de comunicação grande , acho que eles ainda não percebem bem o povo que governam. Em vez de meter os pés pelas mãos com adjectivos ( logo transformados em insultos gerais ao Povo) o PM devia ter simplesmente dito que este ano não há tolerância de ponto , o tempo não está para pontes nem tolerâncias de ponto , quanto mais não seja por uma questão de imagem internacional , mais importante hoje em dia que forrobodó e especialmente com a Troika de volta ao país . Para o ano , correndo as coisas de feição ou pelo menos evitando-se a catástrofe , poderemos outra vez ter o fim de semana prolongado para carnaval ou simplesmente para descansar
O que se passa é que o governo ordenou , as Câmaras e demais organismos ignoram e desobedecem , pelo que além da imagem bizarra de um país encravado e falido a parar de trabalhar para fazer bailes de carnaval ( ou recuperar entre uns e outros) damos outra muito pior , um Governo que ordena mas não é obedecido . Isto tá bem encaminhadinho .
Há coisa de 20 anos mascarámo-nos , o gang das motos , à Ku Klux Klan , cruz a a arder e tudo , o que à distância parece estúpido e seria ofensivo se houvesse negros na minha terra nessa altura . Não tenho mais memórias nem participei em mais carnavais , sobretudo por causa da música. Dpois de séculos de entrudo tradicional um iluminado qualquer foi ao Brasil e regressou com o samba como banda sonora exclusiva. Ao samba juntou-se o axé , o forró , a miríade de géneros e ritmos em que os Brasileiros se excedem e que maravilham o mundo , menos a mim. Gosto da ideia dos bailes de máscaras , mas a cabeleira do zezé e o tira o pé do chão dão-me camadas de nervos e comprometeram a minha participação nos festejos. E depois o excesso e rebaldaria pode ser libertador , mas eu sempre descomprimi quando precisava e não quando estava marcado que era hora de descomprimir , sempre desconfiei da folia com hora marcada , não acho mal mas prefiro não colaborar.
Ontem já era Carnaval , de manhã cedo recebi um telefonema de dois grandes amigos para os quais ainda era de noite , um deles estava incoerente o outro falava do Deco na capa de uma revista cheia de gasóleo, o Carnaval também é feito dessas coisas e eu para esse peditório já dei , apesar de ter ficado contente por eles se terem lembrado de me mandar um abraço mesmo com os neurónios todos em curto circuito.
Aqui há danças de Carnaval , tradições com séculos em que as Freguesias se juntam , mascaram , fazem umas músicas e vão visitar outras freguesias . Há uma fajã , a que se chega depois de uns 2kms a pé por caminhos onde não passa um carro , a pique pela encosta abaixo , onde até há 50 anos viviam pessoas , e não eram poucas , só mesmo indo lá abaixo se pode apreciar o que era o isolamento e as condições de vida destas pessoas . Todos os anos até pelo menos 1950 as pessoas do Porto da Lomba , que viviam no limiar da miséria , juntavam-se , mascaravam-se com o que havia e subiam às Lajes com cantos e danças. Não havia samba nem fantasias elaboradas , havia alegria genuína, porque rara , e versões disto havia por todo o país. Nessa altura em primeiro lugar havia uma religiosidade que hoje desapareceu , para o bem e para o mal, e festejava-se porque a seguir começava a Quaresma , tempo de contrição , reflexão e sacrifício . Também se celebrava porque ao longo do ano não havia quase mais ocasião nenhuma , nem meios , para festejar . São resquícios disso que se vêm nas moças de biquini , lantejoulas e plumas , enregeladas por Ovar ou Torres Vedras , uma reminiscência de uma tradição que quiseram injectar com a alegria e ritmo dos Trópicos com um resultado que eu acho patético. Mas o que eu acho mesmo é que as pessoas se devem divertir como bem entendem desde que não prejudiquem o próximo .
O ano passado deu-se a circunstância muito curiosa de termos a chegar a Portugal o grupo de pessoas que ia coordenar o nosso resgate financeiro , as pessoas que iam assinar o cheque para evitar a falência da Nação. Enquanto estes indivíduos , alvo do escárnio e insultos de muita gente que acha que as más notícias desaparecem se matarmos o mensageiro , se instalaram num gabinete a coordenar esse regaste a Nação meteu 5 dias de férias , mascarou-se e foi sambar , ou ver sambar. Não gostava de ter sido eu a explicar à Troika o que se estava a passar , e se eu fosse parte da Troika , ao saber que havia feriado e "tolerância de ponto" , metia os meus papéis na pastinha , dizia "então bom Carnaval e felicidades" e chamava um taxi para o aeroporto.
Este ano o 1º Ministro achou que já chegava de vergonhas e "acabou com o Carnaval". A mim e desconfio que à vasta maioria da população isto não altera a vida em nada , mas claro que há sempre alguém prejudicado . Como em tantas outras medidas e declarações do Governo , houve falha de comunicação grande , acho que eles ainda não percebem bem o povo que governam. Em vez de meter os pés pelas mãos com adjectivos ( logo transformados em insultos gerais ao Povo) o PM devia ter simplesmente dito que este ano não há tolerância de ponto , o tempo não está para pontes nem tolerâncias de ponto , quanto mais não seja por uma questão de imagem internacional , mais importante hoje em dia que forrobodó e especialmente com a Troika de volta ao país . Para o ano , correndo as coisas de feição ou pelo menos evitando-se a catástrofe , poderemos outra vez ter o fim de semana prolongado para carnaval ou simplesmente para descansar
O que se passa é que o governo ordenou , as Câmaras e demais organismos ignoram e desobedecem , pelo que além da imagem bizarra de um país encravado e falido a parar de trabalhar para fazer bailes de carnaval ( ou recuperar entre uns e outros) damos outra muito pior , um Governo que ordena mas não é obedecido . Isto tá bem encaminhadinho .
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